terça-feira, 30 de setembro de 2008

Nota sobre a Doação de Órgãos

Reunidos em Brasília nos dias 24 a 26 de setembro de 2008, nós – Bispos do Conselho Permanente da CNBB – desejamos esclarecer a posição da Igreja Católica a respeito da doação de órgãos de pessoas com morte encefálica comprovada. A questão tem sua relevância, dado o grande número de pessoas que estão à espera de algum tipo de órgão.

Recordamos antes de tudo a Palavra do Senhor, que diz: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). Guiados pela luz do evangelho, vemos na doação voluntária de órgãos um gesto de amor fraterno em favor da vida e da saúde do próximo. É uma prova de solidariedade, grandeza de espírito e nobreza humana.

O magistério da Igreja tem se manifestado favorável à doação voluntária de órgãos. O Catecismo da Igreja Católica afirma: “a doação gratuita de órgãos após a morte é legítima e pode ser meritória” (n. 2301). A encíclica Evangelium Vitae ensina: “merece particular apreço a doação de órgãos feita segundo normas eticamente aceitáveis para oferecer possibilidades de saúde e de vida a doentes, por vezes já sem esperança” (n. 86). O Papa João Paulo II por ocasião do 18º Congresso Internacional sobre Transplantes de Órgãos, dizia: “A doação de órgãos é uma decisão livre de oferecer, sem recompensa, uma parte do próprio corpo em benefício da saúde e do bem-estar de outra pessoa”. (Roma 29 de agosto de 2000).

Manifestamos nossa solidariedade para com milhares de pessoas que estão em lista de espera, na expectativa de receber algum órgão para sua sobrevivência, recuperação e saúde. Encorajamos as pessoas e especialmente as famílias a que – livre, conscientemente e com a devida proteção legal – doem órgãos como gesto de amor solidário em consonância com o evangelho da vida. Certamente estamos diante de um gesto nobre e comovente: um sim à vida. Aproveitamos a ocasião também para recordar que a moral católica considera lícita não apenas a doação voluntária de órgãos, bem como os transplantes. Encorajamos a todos a colaborarem sempre mais com as doações de sangue e de medula óssea, tão necessárias.

No entanto, destacamos que a doação de órgãos exige rigorosa observância dos princípios éticos que proíbem a provocação da morte dos doadores, a comercialização e o tráfico de órgãos. Sejam conscienciosamente respeitadas a inviolabilidade da vida e a dignidade da pessoa. A ética determina, ainda, que o consentimento do doador ou de sua família seja livre e consciente, após ter recebido todas as informações requeridas.

A Lei Federal nº 10.211 de 23 de março de 2001, determina que a família tem o direito de decidir a doação de órgãos da pessoa em estado de morte encefálica; assim, aqueles que se dispõem à doação, devem manifestar previamente aos familiares a sua intenção. O Sistema Nacional de Transplantes é que decide sobre os critérios de destinação justa dos órgãos doados e sobre a organização das listas de espera, evitando e coibindo toda tentativa de comércio de órgãos.

A doação de órgãos não contraria à fé cristã na ressurreição final, pois “Deus dá vida aos mortos e chama à existência o que antes não existia” (Rm 4,17). Todos aqueles que se dispõem a doar órgãos aos irmãos, tenham a certeza de que o amor e tudo o que se faz por amor permanecerão para sempre: “o amor jamais acabará” (1Cor 13,8).

Brasília-DF, 25 de setembro de 2008

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB

Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB

Fonte: http://www.cnbb.org.br/ns/modules/mastop_publish/?tac=697

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Busca de Deus, fundamento de toda cultura - explica Papa

Discurso ao mundo da cultura no Collège des Bernardins
Paris, sábado, 13 de setembro de 2008 (ZENIT.org).

A busca de Deus é o fundamento de toda cultura, afirmou Bento XVI em seu esperado discurso ao mundo da cultura francês e europeu. O pontífice inaugurou na tarde dessa sexta-feira o restaurado Collège des Bernardins, novo espaço de encontro entre fé e cultura na capital francesa, com uma intervenção na qual mostrou como o cristianismo, e, mais em concreto, o monaquismo, moldaram os fundamentos da cultura européia.

Como o Papa afirmou ao concluir sua fala, a situação atual é muito análoga à do Império Romano, em que evangelizou São Paulo. “Nossas cidades já não estão cheias de altares e imagens de múltiplas divindades. Para muitos, Deus se converteu realmente no grande Desconhecido”, reconheceu o pontífice, em um discurso que havia preparado com esmero originalmente em alemão. “Mas como então, detrás das numerosas imagens dos deuses, estava escondida e presente a pergunta acerca do Deus desconhecido, também hoje a atual ausência de Deus está tacitamente inquieta pela pergunta sobre Ele”, afirmou.

“Buscar a Deus e deixar-se encontrar por Ele: isso hoje não é menos necessário que em tempos passados”, constatou diante de um auditório de cerca de setecentos expoentes do pensamento, da ciência e das artes deste país, assim como representantes da Unesco e da União Européia. Segundo o Papa, “uma cultura meramente positivista que circunscrevesse ao campo subjetivo, como não científica, a pergunta sobre Deus, seria a capitulação da razão, a renúncia a suas possibilidades mais elevadas e, consequentemente, uma ruína do humanismo, cujas consequências não poderiam ser mais graves”. “O que é a base da cultura da Europa, a busca de Deus e a disponibilidade para escutá-lo, continua sendo hoje o fundamento de toda verdadeira cultura”, concluiu.

Giovanni Maria Vian, diretor do "L'Osservatore Romano", explica que Bento XVI, ao apresentar esta aliança entre razão e fé, particularmente na compreensão das Sagradas Escrituras, supera as “interpretações de caráter fundamentalista”, assim como “os subjetivismos arbitrários”.

Por sua parte, o padre Federico Lombardi S.J., diretor do Departamento de Informação da Santa Sé, considera que “a nova contribuição deste grande discurso está na análise do papel da busca de Deus na formação da grande cultura unificadora de nosso continente nos séculos da Idade Média”.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Canto deve estar à altura da Palavra que lhe foi confiada, diz Papa

Ao falar de monaquismo, raízes da cultura européia, formação da razão e erudição
Por Alexandre Ribeiro
Roma, domingo, 14 de setembro de 2008 (ZENIT.org).

Bento XVI recordou essa sexta-feira, na França, que o canto litúrgico deve estar à altura da Palavra que lhe foi confiada. Ao falar a expoentes da cultura francesa, no Collège des Bernardins, o Papa destacava o vínculo entre o monaquismo e as raízes da cultura européia.

Bento XVI afirmou que, desde sua origem, os mosteiros se configuraram como os lugares onde “sobreviviam tesouros da velha cultura e onde, a partir deles, ia-se formando pouco a pouco uma nova cultura”. Enfatizando que a intenção dos monges não era “criar uma cultura”, o Santo Padre disse que sua motivação “era mais elementar: quaerere Deum, buscar a Deus”. “Na confusão de um tempo em que nada parecia ficar em pé, os monges queriam dedicar-se ao essencial: trabalhar com perseverança pelo que vale e permanece sempre, encontrar a própria Vida.”

Eles “buscavam a Deus. Queriam passar do secundário ao essencial, ao que é apenas e verdadeiramente importante e confiável. Disse-se que sua orientação era ‘escatológica’. Que não há que entender em sentido cronológico do termo, como se mirassem ao fim do mundo ou à própria morte, mas existencialmente: detrás do provisório, buscavam o definitivo”.

Segundo o Papa, como eram cristãos, os monges não trilhavam uma expedição “por um deserto sem caminhos, uma busca para o vazio absoluto. Deus mesmo havia colocado sinais pelo caminho, inclusive havia traçado um caminho, tratava-se de encontrá-lo e segui-lo”. “O caminho era sua Palavra, que, nos livros das Sagradas Escrituras, estava aberta diante dos homens. A busca de Deus requer, pois, por intrínseca exigência, uma cultura da palavra”, afirmou o pontífice.

Pelo fato de que, na Palavra bíblica, Deus esteja a caminho de nós e nós a Ele, é necessário “aprender a penetrar no segredo da língua, compreendê-la em sua estrutura e no modo de expressar-se”. Posto que a busca de Deus exige a cultura da palavra, o Papa destacou que os mosteiros têm servido à formação e à erudição do homem, “uma formação com o objetivo último de que o homem aprenda a servir a Deus”. “Por isso, comporta evidentemente também a formação da razão, da erudição, pela qual o homem aprende a perceber entre as palavras, a Palavra.”

“Para captar plenamente a cultura da palavra, que pertence à essência da busca de Deus, temos de dar outro passo. A Palavra que abre o caminho da busca de Deus é ela própria o caminho, é uma Palavra que mira à comunidade.” “A Palavra não é um caminho apenas individual de uma imersão mística, mas introduz na comunhão com quantos caminham na fé.”

Há ainda outro passo, segundo Bento XVI: “a Palavra de Deus nos introduz em conversação com Deus. O Deus que fala na Bíblia nos ensina como podemos falar com Ele”. Isso tudo evidencia, segundo o Santo Padre, que “a Palavra de Deus nos alcança apenas através da palavra humana, através das palavras humanas, quer dizer, Deus nos fala apenas através dos homens, mediante suas palavras e sua história”.

Segundo Bento XVI, “o cristianismo capta nas palavra, a Palavra, o próprio Logos que irradia seu mistério”. Nesse sentido, o Papa recordou que, para orar com a Palavra de Deus, “apenas pronunciar não é suficiente, requer-se a música”. “Em São Bento, para a pregação e para o canto dos monges, a regra determinante é o que diz o Salmo: Coram angelis psallam Tibi, Domine - Na presença dos anjos eu vos cantarei (cf. 138, 1).”

“Aqui se expressa a consciência de cantar na oração comunitária na presença de toda a corte celestial e, portanto, de estar expostos ao critério supremo: orar e cantar de modo que se possa estar unidos com a música dos Espíritos sublimes que eram tidos como autores da harmonia do cosmos, da música das esferas.”

“Os monges, com sua pregação e seu canto, hão de estar à altura da Palavra que lhes foi confiada, a sua exigência de verdadeira beleza”, considerou Bento XVI. É dessa “exigência intrínseca de falar e cantar a Deus com as palavras dadas por Ele que nasceu a grande música ocidental”.

“Não se tratava de uma ‘criatividade’ privada, na que o indivíduo ergue a si mesmo como um monumento, tomando como critério essencialmente a representação do próprio eu.” “Tratava-se de reconhecer atentamente com os ‘ouvidos do coração’ as leis intrínsecas da música da própria criação, das formas essenciais da música, postas pelo Criador em seu mundo e no homem, e encontrar assim a música digna de Deus, que, ao mesmo tempo, é verdadeiramente digna do homem e indica de maneira pura sua dignidade”, disse o Papa.

Leia o texto original clicando aqui.

Unidade dos cristãos: simpósio internacional sobre santidade e martírio

Organizado pelo Conselho Ecumênico das Igrejas no mosteiro italiano de Bose
Roma, quarta-feira, 24 de setembro de 2008 (ZENIT.org).

Um simpósio internacional se centrará na santidade e no martírio como fontes de unidade entre os cristãos. Nele, uma série de especialistas internacionais analisará como a vida exemplar dos cristãos pode contribuir para a união das Igrejas. O Simpósio está organizado pela comissão «Fé e Constituição», do Conselho Ecumênico das Igrejas (WCC), e acontecerá entre 29 de outubro e 2 de novembro, no mosteiro italiano de Bose.

«Na história da Igreja, os homens e as mulheres que levaram uma vida cristã exemplar enriqueceram consideravelmente o patrimônio do movimento ecumênico», sublinha Tâmara Grdzelidze, responsável de programação da Comissão Fé e Constituição.

Cerca de 80 teólogos e responsáveis ortodoxos, católicos, protestantes e pentecostais participarão do simpósio e avaliarão «em que medida a memória comum das testemunhas da fé pode contribuir para a realização de uma espiritualidade ecumênica». Entre os especialistas, intervirão Mary Tanner, presidente para a Europa do Conselho Ecumênico das Igrejas, e o arcebispo de Cantorbery, Rowan Williams, que fará chegar um discurso, ainda que não possa ir pessoalmente.

«O simpósio quer manifestar a riqueza da santidade e do martírio, valorizados nas diferentes tradições e contextos cristãos, e como pode ajudar a conscientizar e contribuir para a reconciliação e compreensão mútua», acrescenta Grdzelidze.

Neste contexto, haverá uma comemoração ecumênica destas testemunhas da fé no sábado, 1º de novembro, festa de Todos os Santos para a tradição cristã ocidental. Os organizadores recordam também o gesto de João Paulo II, em 17 de maio de 2000, no Coliseu de Roma, dentro dos atos do Grande Jubileu, de celebrar os mártires do século XX de todas as confissões cristãs.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Papa insiste na centralidade da Eucaristia para vida da Igreja

Durante a consagração do altar de uma catedral próxima de Roma
Albano, segunda-feira, 22 de setembro de 2008 (ZENIT.org).

Bento XVI insistiu neste domingo na centralidade da Eucaristia para a vida cristã, durante a consagração do altar da catedral de Albano, diocese suburbicária de Roma.

Durante a homilia, o Papa explicou que durante a celebração da Missa, o altar «se converte, de certa forma, em ponto de encontro entre o céu e a terra; o centro, poderíamos dizer, da única Igreja, que é celeste e ao mesmo tempo peregrina na terra».«Mais ainda, cada celebração antecipa o triunfo de Cristo sobre o pecado e sobre o mundo, e mostra no mistério o fulgor da Igreja», acrescentou.

A presença real de Cristo na Eucaristia, acrescentou o Papa, «é uma presença dinâmica, que nos segura para tornar-nos seus, para nos assemelharmos a Ele, que nos atrai com a força de seu amor, fazendo-nos sair de nós mesmos para unir-nos a Ele, fazendo de nós uma só coisa com Ele».Neste sentido, o Papa insistiu na necessidade da reconciliação entre os cristãos que participam do sacramento.

«É possível estar em comunhão com o Senhor se não estivermos em comunhão conosco? Como podemos apresentar-nos diante do altar de Deus divididos, distantes uns dos outros?», acrescentou.O Papa explicou que é necessário o perdão e a reconciliação fraternos antes de comungar: «vossa alma deve se abrir ao perdão e à reconciliação fraterna, dispostos a aceitar as desculpas de todos que vos feriram e dispostos, por vossa parte, a perdoar».

«Quando os crentes se colocam em contato em uma determinada ordem, eles se justapõem e formam uma coesão mútua e estreitamente; quando todos estão unidos com a caridade se convertem verdadeiramente em casa de Deus que não teme ser derrubada», acrescentou o Papa, citando Santo Agostinho. Neste sentido, explicou a necessidade não só da comunhão, mas também da co-responsabilidade, pois «a comunhão eclesial é também uma tarefa confiada à responsabilidade de cada um».

«Que o Senhor vos conceda uma comunhão cada vez mais convencida e operante, na colaboração e na co-responsabilidade em todos os níveis: entre presbíteros, consagrados e leigos, entre as diferentes comunidades do vosso território, entre as diversas agrupações de leigos», concluiu.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Visita do Secretário Nacional do Apostolado da Oração

No dia 07 de agosto, nós do AO da Paróquia das Graças, tivemos a feliz oportunidade de receber o Pe. Otmar Jacob, secretário nacional do AO.

Na ocasião, o Pe. Otmar falou que o AO propõe um caminho para nós, a partir do oferecimento diário. O caminho da salvação. Ressaltou o quanto é importante oferecer o dia a dia de nossa vida em união com Jesus Eucarístico.

Destacou que quem participa do AO precisa:
- ter devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria;
- ter devoção ao Espírito Santo
- freqüência à Eucaristia (através da Santa Missa);
- freqüência à Adoração ao Santíssimo Sacramento.

Após o encontro o Pe. Otmar celebrou a Missa para todos os fiéis.

Apostolado da Oração - Paróquia das Graças

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Sínodo sobra a Palavra de Deus

Dos dias 05 a 26 de outubro acontecerá no Vaticano, a XII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Este sínodo, o segundo do pontificado de Bento XVI, terá como tema "A palavra de Deus na vida e na missão da Igreja". Refletindo sobre a Palavra de Deus os bispos deverão refletir sobre como estimular o amor profundo pela Sagrada Escritura para que os fiéis tenham amplo acesso a ela, como promover a Lectio Divina, e sobre como fazer redescobrir o nexo entre Palavra de Deus e liturgia.

A palavra sínodo tem sua origem no idioma grego - sýnodos - e quer dizer ‘caminhar juntos’. Além de bispos, participam sacerdotes, diáconos, religiosos e leigos, cada um com a sua contribuição específica. O Sínodo dos Bispos é uma instituição permanente, criada pelo Papa Paulo VI em 1965, em resposta aos desejos dos Padres do Concilio Vaticano II para manter vivo o espírito de colegialidade nascido da experiência conciliar. É um encontro religioso ou assembléia, onde os bispos, reunidos com o Papa, têm a oportunidade de trocar informações e compartilhar experiências, com o objetivo comum de buscar soluções pastorais que tenham validade e aplicação universal.

Como explica o Instrumentum Laboris (Instrumento de trabalho) apresentado em junho passado, o Sínodo terá uma índole pastoral e missionária. De acordo com Nikola Eterovic, secretário-geral do sínodo dos bispos, o documento contém também diversas citações de Bento XVI e o seu convite à Igreja a renovar-se fazendo votos de uma nova primavera espiritual.

“Ele [o Instrumentum Laboris ] é fruto da reflexão de 13 Sínodos dos bispos das Igrejas Orientais Católicas sui iuris, das 113 Conferências episcopais, dos 25 organismos da Cúria Romana e da União dos Superiores Gerais”. Dividido em três partes, desenvolve: 1) O Mistério de Deus que nos fala; 2) A Palavra de Deus na vida da Igreja; 3) A Palavra de Deus na missão da Igreja.

A Bíblia é o livro mais difundido e traduzido - pode ser lida em 2.454 línguas e que as línguas no mundo são 6.700. Contudo, Dom Eterović ressalta que ela é pouco lida (na Itália, por exemplo, somente 38% dos praticantes a teriam aberto nos últimos 12 meses).

Como membros da Igreja, temos de nos interessar pelos debates e conclusões que surgirão deste Sínodo. A Palavra de Deus faz (ou deveria fazer) parte de nossas vidas de cristãos, pois é através dela que dialogamos com Deus.

Bruno Melo

Como ler a Bíblia? O Papa responde

(...) Antes de tudo, é preciso dizer que se deve ler a Sagrada Escritura não como um livro histórico qualquer, como lemos, por exemplo, Homero, Ovídio, Horácio; é preciso lê-la realmente como Palavra de Deus, isto é, colocando-se em diálogo com Deus. Inicialmente deve-se rezar, falar com o Senhor: "Abre-me a porta". É quanto diz com freqüência Santo Agostinho nas suas homilias: "Bati à porta da tua Palavra para encontrar finalmente o que o Senhor me quer dizer". Isto parece-me um ponto muito importante. Não se lê a Escritura num clima acadêmico, mas rezando e dizendo ao Senhor: "Ajuda-me a compreender a tua Palavra, o que agora tu me queres dizer nesta página".

O segundo ponto é: a Sagrada Escritura introduz na comunhão com a família de Deus. Por conseguinte, não se pode ler sozinhos a Sagrada Escritura. Não há dúvida de que é sempre importante ler a Bíblia de modo muito pessoal, num diálogo pessoal com Deus, mas ao mesmo tempo é importante lê-la na companhia de pessoas com as quais se caminha. Deixar-se ajudar pelos grandes mestres da "Lectio divina". (...) Estes mestres ajudam-nos a compreender melhor e também a aprender como ler bem a Sagrada Escritura. Depois, em geral, é oportuno lê-la também em companhia dos amigos que estão a caminho conosco e procuram, juntos, o modo de viver com Cristo, qual deve ser a vida que nos vem da Palavra de Deus.

O terceiro ponto: se é importante ler a Sagrada Escritura ajudados pelos mestres, acompanhados pelos amigos, pelos companheiros de caminhada, é importante em particular lê-la na grande companhia do Povo de Deus peregrino, isto é, na Igreja. A Sagrada Escritura tem dois sujeitos. Antes de tudo, o sujeito divino: é Deus que fala. Mas Deus quis envolver o homem na sua Palavra. Enquanto os muçulmanos têm a convicção de que o Alcorão seja inspirado verbalmente por Deus, nós cremos que a Sagrada Escritura se caracteriza como dizem os teólogos pela "sinergia", a colaboração de Deus com o Homem. Ele envolve o seu Povo com a sua palavra e assim o segundo sujeito o primeiro sujeito, como disse, é Deus é humano. Nela há escritores individuais, mas também a continuidade de um sujeito permanente o Povo de Deus que caminha com a Palavra de Deus e está em diálogo com Deus. Ouvindo Deus, aprende-se a ouvir a Palavra de Deus e depois também a interpretá-la. E assim a Palavra de Deus torna-se presente, porque as pessoas morrem, mas o sujeito vital, o Povo de Deus, está sempre vivo, e é idêntico ao longo dos milênios: é sempre o mesmo sujeito vivente, no qual vive a Palavra.

Explicam-se assim também muitas estruturas da Sagrada Escritura, sobretudo a chamada "releitura". Um texto antigo é lido de novo noutro livro, digamos 100 anos mais tarde, e então o que ainda não era compreensível naquele momento precedente é compreendido em profundidade, mesmo se já estava contido no texto precedente. E volta a ser lido de novo mais tarde, e de novo se compreendem outros aspectos, outras dimensões da Palavra, e assim nesta permanente releitura e reescritura no contexto de uma continuidade profunda, enquanto se sucediam os tempos da expectativa, a Sagrada Escritura cresceu. Por fim, com a vinda de Cristo e com a experiência dos Apóstolos a Palavra tornou-se definitiva, de forma que não podem haver mais reescrituras, mas continuam a ser necessários novos aprofundamentos da nossa compreensão. O Senhor disse: "O Espírito Santo introduzir-vos-á numa profundidade que agora não podeis ter". Por conseguinte, a comunhão da Igreja é o sujeito vivo da Escritura. Mas também agora o sujeito é o próprio Senhor, o qual continua a falar na Escritura que temos nas mãos. Penso que devemos aprender estes três elementos: ler em diálogo pessoal com o Senhor; ler acompanhados por mestres que têm a experiência da fé, que entraram na Sagrada Escritura; ler na grande companhia da Igreja, em cuja Liturgia estes acontecimentos se tornam sempre de novo presentes, na qual o Senhor fala agora conosco, para que, lentamente entremos cada vez mais na Sagrada Escritura, na qual Deus fala realmente conosco, hoje.

fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2006/april/documents/hf_ben-xvi_spe_20060406_xxi-wyd_po.html