sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Terminado o Sínodo dos Bispos

Após 21 dias de trabalho e muitas reuniões, os padres sinodais aprovaram e publicaram a lista com as Propositiones que serão apresentadas ao Papa Bento XVI. Foram 55 no total e por vontade do Papa, foram publicadas numa versão italiana não oficial. É a partir dessas Propositiones que Bento XVI irá escrever a Exortação Apostólica Pós-Sinodal – documento solene que encerra oficialmente o Sínodo.

A lista está dividida em três capítulos. Após uma introdução, que engloba duas proposições, o primeiro capítulo tem como título “A Palavra de Deus na fé da Igreja” (3-13). O segundo capítulo da “Palavra de Deus na vida da Igreja” (14-37); e o último trata da “Palavra de Deus na missão da Igreja” (38-54). O documento é concluído com a última proposição, “Maria Mater Dei et Mater fidei”.

Segundo a Rádio Vaticano, as proposições dirigem uma palavra particular aos estudiosos do texto bíblico: os exegetas, que "devem ter em conta, como teólogos, que a Palavra tem uma dimensão ulterior que não pode ser esgotada com a mera pesquisa filológica, histórico-crítica, mas que exige outro itinerário, outra abordagem, que está no espírito de Deus".

Em termos de liturgia, se abre estrada à elaboração de um "diretório homilético", e se pede que as Sagradas Escrituras ocupem um lugar visível nas Igrejas. Além disso, se deseja que o papel dos leitores seja estudado e aprofundado;

O papel da mulher na família e na catequese, assim como na promoção do conhecimento da Bíblia, recebe menção especial. Quanto ao papel da mulher, a inovação é de um crescente reconhecimento de seu imprescindível papel na transmissão da fé, e de seu lugar na Igreja;

O ecumenismo tem seu lugar de destaque, assim como, nesse contexto, a importância do diálogo com os judeus "a partir da plataforma do Antigo Testamento" e com os muçulmanos, "centrado no elemento comum do único Deus";

Em situações de conflitos étnicos e de tensões inter-religiosas, as proposições pedem o empenho dos católicos na construção de "pontes de diálogo para construir uma sociedade mais harmoniosa". O texto dedica particular atenção aos pobres, marginais e deficientes, para que "a inculturação da Bíblia toque todos os povos da terra".

Participaram deste Sínodo aproximadamente 400 pessoas: 253 padres sinodais – representando cada continente - 41 peritos (de 23 países), 37 auditores (de 26 países) e representantes de 10 Igrejas e comunidades eclesiais não católicas. Também a presença das mulheres foi um traço marcante na assembléia: participaram 25 mulheres – sendo 6 peritas e 19 auditoras.

B.M.


Campanha “Não Matarás”

Infelizmente já não causa mais espanto a quase nenhum recifense, a notícia de que nossa cidade é a mais violenta do país. Cada dia que passa vemos os números da violência tornarem-se cada vez maiores, e rezamos sempre para que nada de mal ocorra conosco ou com nossa família.

De acordo com dados do PEbodycount (http://www.pebodycount.com.br) no dia 30-10-08 (dia em que estas linhas foram escritas), 30 pessoas foram assassinadas no Recife - o que no ano perfaziam um total de 3636 pessoas. São números de uma guerra que não se vê, mas cujas vítimas aparecem todos os dias...

Por que se mata tanto em nossa cidade? Por que a vida humana parece cada vez mais ter menos valor? Não são questões fáceis de serem respondidas. Devemos levar em consideração variáveis de ordem moral, ética, social, antropológica, econômica, política, dentre tantas outras. O que precisamos agora, urgentemente, é passar a valorizar mais a vida humana.

Com a intenção de sensibilizar o maior número de pessoas e de organizações governamentais e não-governamentais em relação ao tema homicídios no âmbito do Estado de Pernambuco e contribuir para a construção da cultura da vida em nossas cidades, foi lançada no dia 17 de outubro em nossa Arquidiocese a campanha “Não Matarás”. Realizada pela Pastoral da Saúde da Arquidiocese de Olinda e Recife em parceria com o PEbodycount, a campanha se estenderá até o dia 16 de novembro.

Que esta iniciativa possa trazer bons frutos para todos, já que a violência não faz distinção de pessoas, e que todos nós, da forma que pudermos, nos empenhemos em promover a paz. Como o próprio Jesus disse: “Bem aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9)

B.M.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Casal santo que soube educar sua família nos caminhos de Deus

Bispo brasileiro comenta beatificação dos pais de Santa Teresinha
São Paulo, segunda-feira, 20 de outubro de 2008 (ZENIT.org).

Segundo um bispo brasileiro, os pais de Santa Teresinha do Menino Jesus «destacam-se como modelo de casal santo que soube educar sua família nos caminhos de Deus».

Dom Gil Antônio Moreira, bispo de Jundiaí, São Paulo, escreveu aos fiéis no contexto da beatificação do casal Zélia Guérin e Luís Martin, ocorrida no domingo 19/10, na Basílica de Lisieux, na França. O bispo cita palavras da jovem Santa Teresinha, que afirmava: «o Bom Deus deu-me um pai e uma mãe mais dignos do céu do que da terra».

Zélia Guérin e Luís Martin, pais de nove filhos, quatro deles falecidos em tenra idade, são o segundo casal beatificado simultaneamente, depois dos italianos Luigi e Maria Beltrame Quattrocchi (falecidos em 1951 e 1965 e beatificados em 2001 por João Paulo II).

Santa Teresinha teve outras quatro irmãs monjas: Maria, Paulina, Leônia e Celina, três carmelitas e uma visitandina. Mas, de acordo com Dom Gil Moreira, Teresinha distingue-se entre suas irmãs pela «expressividade de seu amor a Deus e à Igreja em tão pouco tempo de vida». Ela faleceu aos 24 anos de idade, em 1897. Foi canonizada em 1925. E é hoje uma das santas mais conhecidas de todo o mundo, comenta o bispo.

«Refletindo sobre as Cartas de São Paulo, encantou-se com a primeira aos Coríntios que a fez exclamar: encontrei o meu lugar na Igreja, tu me deste este lugar, meu Deus. No coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor e desse modo serei tudo, e meu desejo se realizará.»

Dom Gil afirma que «o lar de Alençon era iluminado de autêntico compromisso religioso, sendo Zélia modelo de esposa, mulher orante, participante da vida sacramental diária, pois toda manhã se dirigia à igreja para a primeira missa». «O amor à mãe de Jesus lhe era tão vivo, que celebrava em casa, com o marido e as filhas, os atos devocionais do mês de maio, diante de um altar que artisticamente organizava, onde punha em evidência a linda imagem de Nossa Senhora do Sorriso.»

Já Luís, «o esposo fiel, guardava profundo amor à Eucaristia. Além da participação assídua à missa, tinha por costume fazer a adoração noturna ao Santíssimo Sacramento». Certa vez --narra o bispo--, Zélia escreve à filha no mosteiro: ‘Teu pai foi fazer a Adoração noturna na noite passada, ainda que estivesse muito fatigado quando nos deixou, às nove horas da noite. Em outra ocasião, já havia escrito: Estou muito feliz com ele, pois torna a minha vida muito doce. Meu marido é um santo homem, desejo um igual a todas as mulheres’.

«Em casa tão santa, não havia como evitar uma exclamação de Zélia, ao ver que certos casamentos não se pautam pelos princípios do santo Evangelho e, por isso, vão se dando em nada. Exclama: Meu Deus, como é triste uma casa sem religião», conta o bispo. De acordo com Dom Gil Moreira, o Abade Dumaine, seu pároco, testemunhou: era notável a união nesta família, tanto entre os esposos, como entre os pais e as filhas.

Os nomes dos pais de Santa Teresinha «brilham novamente no céu» e o santo casal «será espelho para as famílias que buscam verdadeira felicidade só possível na fidelidade matrimonial e na primorosa e santificadora educação dos filhos», afirma o bispo.

«Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum», diz Adélia Prado

Escritora brasileira defende resgate da beleza na celebração da liturgia
Por Alexandre Ribeiro
Aparecida, domingo, 2 de dezembro de 2007 (ZENIT.org).

Ao defender o esmero com as celebrações litúrgicas e a beleza como uma «necessidade vital» que deve permeá-las, a escritora brasileira Adélia Prado afirma que «a missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum». «A missa é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso», enfatiza.

Poeta e prosadora, uma das mais renomadas escritoras brasileiras da atualidade, Adélia Prado, 71 anos, falou sobre o tema da linguagem poética e linguagem religiosa essa quinta-feira, em Aparecida (São Paulo), no contexto do evento «Vozes da Igreja», um festival musical e cultural.

Ao propor a discussão do resgate da beleza nas celebrações litúrgicas, Adélia Prado reconheceu que essa é uma preocupação que a tem ocupado «há muitos anos». «Como cristã de confissão católica, eu acredito que tenho o dever de não ignorar a questão», disse. «Olha, gente – comentou com um tom de humor e lamento –, têm algumas celebrações que a gente sai da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar.»

Como um primeiro ponto a ser debatido, Adélia colocou a questão do canto usado na liturgia. Especialmente o canto «que tem um novo significado quanto à participação popular», ele «muitas vezes não ajuda a rezar». «O canto não é ungido, ele é feito, fazido, fabricado. É indispensável redescobrir o canto oração», disse, citando o padre católico Max Thurian, que, observador no Concílio Vaticano II ainda como calvinista, posteriormente converteu-se ao catolicismo e ordenou-se sacerdote.

Adélia Prado reforçou as observações, enfatizando que «o canto barulhento, com instrumentos ruidosos, os microfones altíssimos, não facilita a oração, mas impede o espaço de silêncio, de serenidade contemplativa». Segundo a poeta, «a palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição».

«Nós não encontramos mais em nossas igrejas o espaço do silêncio. Eu estou falando da minha experiência, queira Deus que não seja essa a experiência aqui», comentou. «Parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto». «Não há silêncio. Não havendo silêncio, não há audição. Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério», disse.

De acordo com a escritora mineira (natural de Divinópolis), «muitos procedimentos nossos são uma tentativa de domesticar aquilo que é inefável, que não pode ser domesticado, que é o absolutamente outro». «Porque a coisa é tão indizível, a magnitude é tal, que eu não tenho palavras. E não ter palavras significa o quê? Que existe algo inefável e que eu devo tratar com toda reverência.»

Adélia Prado fez então críticas a interpretações equivocadas que se fizeram do Concílio Vaticano II na questão da reforma litúrgica. «Não é o fato de ter passado do latim para a língua vernácula, no nosso caso o português, não é isso. Mas é que nessa passagem houve um barateamento. Nós barateamos a linguagem e o culto ficou empobrecido daquilo que é a sua própria natureza, que é a beleza.»

«A liturgia celebra o quê?» – questionou –. «O mistério. E que mistério é esse? É o mistério de uma criatura que reverencia e se prostra diante do Criador. É o humano diante do divino. Não há como colocar esse procedimento num nível de coisas banais ou comuns.»

Segundo Adélia, o erro está na suposição de que, para aproximar o povo de Deus, deve-se falar a linguagem do povo. «Mas o que é a linguagem do povo? É aí que mora o equívoco», – disse –. «Não há ninguém que se acerca com maior reverência do mistério de Deus do que o próprio povo».

«O próprio povo é aquele que mais tem reverência pelo sagrado e pelo mistério», enfatizou. «Como é que eu posso oferecer a esse povo uma música sem unção, orações fabricadas, que a gente vê tão multiplicadas e colocadas nos bancos das igrejas, e que nada têm a ver com essa magnitude que é o homem, humano, pecador, aproximar-se do mistério.»

Segundo a escritora brasileira, barateou-se o espaço do sagrado e da liturgia «com letras feias, com músicas feias, comportamentos vulgares na igreja». «E está tão banalizado isso tudo nas nossas igrejas que até o modo de falar de Deus a gente mudou. Fala-se o “Chefão”, “Aquele lá de cima”, o “Paizão”, o “Companheirão”.» «Deus não é um “Companheirão”, ele não é um “Paizão”, ele não é um “Chefão”. Eu estou falando de outra coisa. Então há a necessidade de uma linguagem diferente, para que o povo de Deus possa realmente experimentar ou buscar aquilo que a Palavra está anunciando», afirmou.

Para Adélia Prado, «linguagem religiosa é linguagem da criatura reconhecendo que é criatura, que Deus não é manipulável, e que eu dependo dele para mover a minha mão». Com esse espírito, enfatizou, «nossa Igreja pode criar naturalmente ritos e comportamentos, cantos absolutamente maravilhosos, porque verdadeiros».

Ao destacar que a missa é como um poema e que não suporta enfeites, Adélia Prado afirmou que a celebração da Eucaristia «é perfeita» na sua simplicidade. «Nós colocamos enfeites, cartazes para todo lado, procissão disso, procissão daquilo, procissão do ofertório, procissão da Bíblia, palmas para Jesus. São coisas que vão quebrando o ritmo. E a missa tem um ritmo, é a liturgia da Palavra, as ofertas, a consagração… então ela é inteirinha.»

«A arte a gente não entende. Fé a gente não entende. É algo dirigido à terceira margem da alma, ao sentimento, à sensibilidade. Não precisa inventar nada, nada, nada», disse Adélia.

E encerrou declamando um poema seu, cujo um fragmento diz:
"Ninguém vê o cordeiro degolado na mesa,
o sangue sobre as toalhas,
seu lancinante grito,
ninguém".

Opiniões pessoais não fazem parte das homilias: é a Igreja que ensina

Entrevista ao professor Salvatore Vitiello, da Universidade do Sacro Cuore de Roma

Por Miriam Díez i Bosch
Roma, sexta-feira, 17 de outubro de 2008 (ZENIT.org).


As homilias devem falar da vida, e não do que o sacerdote pensa, porque os fiéis têm direito, participando da Santa Missa, a escutar o que a Igreja ensina, não o que um sacerdote pensa ou acha que seja certo em um momento determinado; as opiniões pessoais não devem nunca ser objeto de pregação pública, porque assim se faria uma instrumentalização da homilia. Estas são algumas das idéias do professor Salvatore Vitiello, entrevistado pela ZENIT por ocasião do Sínodo sobre a Palavra, que tratou também da problemática ligada às homilias.


Vitiello é professor de Teologia Sacramental no Instituto Superior de Ciências Religiosas de Turim, e de Introdução à Teologia na Universidade Católica do Sacro Cuore de Roma.


O Sínodo está preocupado com as homilias: às vezes são pobres e podem induzir os fiéis a buscarem «mais conteúdo» nas seitas. Que soluções podem ser dadas?
Vitiello: Antes de tudo, eu não generalizaria, afirmando que as homilias são «pobres». Há muitíssimos exemplos de grandes pregadores, realmente capazes de transmitir, com eficácia e autêntico conteúdo espiritual, o Evangelho do Nosso Senhor. Certamente, o problema existe e tem uma dupla raiz: no auditório e no pregador.



É necessário, no primeiro caso, ter presente que a comunicação, nas últimas décadas, mudou muito, trazendo consigo não só novos costumes, mas autênticas mudanças antropológicas, cujos efeitos se verão em um futuro próximo.


A possibilidade de comunicar, em qualquer lugar e instante, com quem se quer, a velocidade e rapidez da comunicação, a introdução dos mais modernos meios, constituem, talvez mais que a televisão, uma verdadeira e autêntica «revolução». Em conseqüência, nem sempre se está preparado para escutar uma homilia que, na realidade, configura-se como um discurso, uma narração, que prevê, para ser compreendida, o treinamento para um tipo de comunicação hoje não tão habitual.


Certamente, muito, eu diria que muitíssimo, depende do pregador. Os sacerdotes são conscientes de não ser «franco-atiradores», mas de exercer o próprio ofício sacerdotal por um mandato explícito de Cristo, através da Igreja. Segue daí que, também a pregação, que é um dos mais insignes serviços ministeriais, deva obedecer a este critério.


Na homilia, que não por acaso está reservada aos ministros sagrados e não pode ser pronunciada por fiéis leigos, exercita-se, de modo particular, o que a Igreja chama de munus decendi, o dever de ensinar. Ensinar o quê? Ensinar como?


A resposta à primeira pergunta é muito simples: Nada que não seja a pura doutrina da Igreja. Os fiéis têm o direito, participando da Santa Missa, de escutar o que a Igreja ensina, não o que um sacerdote, em certo momento, pensa ou acha justo. As opiniões pessoais não deveriam jamais ser objeto de pregação pública, porque se produziria assim uma instrumentalização da homilia.


Partindo do explícito kerygma cristão, segundo o qual Jesus de Nazaré é o Senhor Ressuscitado, Deus feito homem por nós e nossa salvação, é necessário saber apresentar de forma orgânica, progressiva e tendencialmente completa, todas as verdades da fé. É impensável que se pregue exclusivamente, por exemplo, sobre o amor, sem mencionar nunca a verdade e a justiça; ou que as homilias sofram uma «deriva moralista» insustentável, nunca oportunamente sub-rogada às razões sobrenaturais pelas quais vale a pena comportar-se de uma forma ao invés que de outra.


O ponto talvez mais delicado seja «como» pregar e ensinar. Creio que o primeiro fator é a fé e a convicção profunda, nutrida pela oração e a preparação do próprio pregador. O povo santo de Deus tem um «sexto sentido», sensus fidei (sentido da fé), com base no qual reconhece imediatamente se os sacerdotes falam de coisas das quais crêem e têm experiência, ou não.


É também fundamental aprender a suscitar as perguntas últimas no coração dos homens. É completamente inútil dar respostas, ainda que sejam dogmaticamente corretas ou moralmente justas, se no coração não se suscitou uma pergunta, um desejo. A pergunta e o desejo se suscitam através de um encontro pessoal (como confirma o Papa na encíclica Deus caritas est, n. 1), que desperte no coração o que parecia adormecido.


Se a homilia fala de «coisas que têm a ver com a vida», e dá respostas às perguntas fundamentais da existência de cada um, já não será cansativa! Talvez poderá ser discutida ou não compartilhada, mas não será cansativa.


É absolutamente necessário sair, também no que diz respeito à pregação, do «túnel do relativismo», dessa ditadura que impede anunciar a diferença entre verdade e falsidade, bem e mal, pecado e virtude.


Muitos jovens não conhecem a Sagrada Escritura. Há formas de corrigir esta lacuna?
Vitiello: Se uma pessoa, jovem ou adulta, não sabe algo é porque ainda não encontrou alguém que lhe faça interessar-se: alguém capaz de despertar nela o interesse por essa realidade. A Bíblia não é uma exceção deste critério. Quem não se encontrou com Cristo, vivo e presente em seu Corpo, que é a Igreja, que são os cristãos, os que hoje pertencem ao Senhor, dificilmente poderá interessar-se, de maneira correta, na Sagrada Escritura.



Existe, neste sentido, também um grave problema cultural: Se tirarmos do patrimônio comum, inclusive mais elementar, a referência ao Antigo e ao Novo Testamento, não compreenderemos quase nada da história da humanidade.


Tanto desde o ponto de vista artístico (pictórico, escultórico, musical ou arquitetônico) como quanto à estruturação jurídica e moral da sociedade, se não houver um conhecimento mínimo das Sagradas Escrituras hebraico-cristãs, a maior parte dos dados ficará completamente indecifrável.


Os meios para esta «operação cultural» são muitos e deveriam estar voltados sobretudo à instrução, a difusão da cultura bíblica com todos os meios, inclusive a internet, talvez não deixando o monopólio destas informações a sites pouco e mal-informados, freqüentados superficialmente.


Outra coisa é a aproximação existencial do texto Sagrado, que, como disse, depende de um encontro interpessoal significativo, no qual ressoa o anúncio da fé. Uma vida mudada por este encontro trará consigo o amor às Sagradas Escrituras, das quais são testemunhas estes encontros salvíficos, e que será, em todos os âmbitos, capaz de produzir uma «cultura cristã compartilhada».


Até que ponto biblistas e exegetas podem pesquisar na Bíblia?
Vitiello: No conhecimento humano, o método não é decidido arbitrariamente pelo sujeito conhecedor, mas o objeto conhecido o impõe. E o conhecimento é exatamente um encontro entre o sujeito e o objeto. Isso é realismo.



Se esta regra elementar for respeitada, não haverá limites na pesquisa bíblica, porque esta será simplesmente um «adequar-se» ao método que o próprio objeto – ou seja, o Texto Sagrado – sugere, sem esquecer nunca que a Revelação cristã não se limita ao Texto Sagrado, mas inclui a Tradição e o Magistério vivo, sem os quais não é possível interpretar autenticamente as Escrituras.


Não convém esquecer nunca que estamos diante da narração dos atos históricos realizados por Deus para a salvação dos homens e do mundo, narração que tem com verdadeiro autor o próprio Deus e, contemporaneamente, os hagiógrafos humanos.


O fato de que não haja limites para a pesquisa não significa necessariamente que todos os êxitos da pesquisa sejam corretos. O ser «especialista» ou «pesquisadores», em nenhuma disciplina nos salva de cometer erros, inclusive gafes macroscópicas. O critério vale também para biblistas e exegetas.


O Santo Padre Bento XVI, na Introdução ao livro «Jesus de Nazaré», ofereceu uma série de critérios para uma aproximação correta do Texto Sagrado. Acho que vale a pena retomá-los e partir daí, para toda pesquisa bíblica que quiser ser um verdadeiro serviço eclesial.