segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Atuais desafios da paróquia e dos párocos

Fala o promotor de Justiça substituto do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica
Cidade do Vaticano, terça-feira 25 de agosto de 2009

A nova evangelização se reduziria a um simples slogan se não existissem sacerdotes, particularmente párocos, que estejam à altura das exigências do mundo em que vivem.

Esta convicção, exposta no dia 19 de agosto por Bento XVI na audiência geral, é decisiva também para a paróquia, que continua estando chamada a desempenhar um papel missionário no futuro. O tema é tratado nesta entrevista pelo promotor de Justiça substituto do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica na Santa Sé, Fr. Nikolaus Schöch, O.F.M., que está em Lima esta semana para participar da Jornada de Formação permanente para o clero da arquidiocese.

Estes encontros abordarão diversas “Questões de administração paroquial”, na sede do seminário “São Toríbio de Mongrovejo”, em Lima.

Hoje, qual é o principal serviço que um pároco deve oferecer aos seus fiéis?
Fr. Nikolaus Schöch: Os sacerdotes que já estão no exercício do seu ministério, parece que hoje sofrem uma excessiva dispersão nas crescentes atividades pastorais e, frente à problemática da sociedade e da cultura contemporâneas, sentem-se impulsionados a questionar seu estilo de vida e as prioridades dos trabalhos pastorais, ao mesmo tempo em que notam, cada vez mais, a necessidade de uma formação permanente.

Com relação a isso, é preciso levar em consideração que a própria paróquia – e às vezes também a diocese ,– ainda tendo autonomia própria, não pode ser uma ilha, especialmente em nosso tempo, no qual abundam os meios de transporte e de comunicação. As paróquias são órgãos vivos do único Corpo de Cristo, da única Igreja, na qual se acolhe e se serve tanto os membros das comunidades locais como todos os que, por qualquer razão, afluem a ela em um momento que pode significar a ação da graça de Deus em uma consciência e em uma vida. Naturalmente, isso não deve transformar-se em motivo de desordem ou de irregularidades com relação às leis canônicas, que também estão ao serviço da pastoral.

Também a função de guiar a comunidade como pastor, tarefa própria do pároco, deriva de sua relação peculiar com Cristo, cabeça e pastor. É uma função que reveste caráter sacramental.

Não é a comunidade que confia esta tarefa ao sacerdote, e sim, por meio do bispo, ela lhe vem do Senhor.

Que eixos de desenvolvimento devem existir em uma paróquia para que se possa organizar de maneira adequada e atender os fiéis convenientemente?
Fr. Nikolaus Schöch: A paróquia, com suas celebrações litúrgicas e em seus serviços, deveria levar em consideração a mobilidade das pessoas, a confluência de muitas delas a alguns lugares e a nova assimilação geral de tendências, costumes, modas e horários.

O pároco, ao estabelecer na paróquia os horários das Missas e das confissões, deve considerar quais são os momentos mais adequados para a maior parte dos fiéis, permitindo também aos que têm dificuldades especiais de horário que possam se aproximar facilmente dos sacramentos. É preciso levar em conta não tanto a comodidade do horário para os sacerdotes, e sim as necessidades das pessoas com os horários de trabalho e estudo. Não tem muito sentido oferecer o sacramento da Penitência somente durante o horário comercial; fazendo assim, só viriam os idosos.

Atualmente, com relação aos párocos, que critérios vale a pena levar em consideração para administrar uma paróquia eficientemente, procurando ao mesmo tempo a salvação das almas?
Fr. Nikolaus Schöch: Enquanto partícipe da ação diretiva de Cristo Cabeça e pastor sobre seu Corpo, o sacerdote está especificamente capacitado para ser, no campo pastoral, o “homem da comunhão”: “Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milênio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo” (Novo millenio ineunte, n. 43).

Em uma época em que abundam os conselhos, é preciso recordar a responsabilidade pessoal do pároco na moderação da paróquia. Por outro lado, essa função de governo exige que seja um homem de comunhão, isto é, um homem que una toda a paróquia e não seja – isoladamente – amigo de alguns fiéis ou grupos. Tem de ser um homem que una ricos e pobres, intelectuais e pessoas simples, jovens e idosos, mães de família e solteiras, religiosos e leigos, conservadores e progressistas etc.

Nenhum pároco pode cumprir cabalmente sua missão de forma isolada ou individual, mas somente unindo suas forças às de outros presbíteros, sob a direção daqueles que estão à frente da Igreja. No futuro, será sempre mais importante a colaboração entre: os párocos de várias paróquias; os párocos e seus vigários; o clero diocesano e os membros dos institutos de vida consagrada; os clérigos e os leigos.

É preciso favorecer um especial esforço de compreensão mútua e de ajuda recíproca, inclusive as relações entre os presbíteros de mais idade e os mais jovens: uns e outros são igualmente necessários para a comunidade cristã e são apreciados pelos bispos e pelo Papa.

O Concílio Vaticano II recomenda aos de mais idade que tenham compreensão e simpatia com relação às iniciativas dos jovens; e aos jovens, que respeitem a experiência dos mais velhos e confiem neles; a uns e outros, recomenda que se tratem com afeto sincero, segundo o exemplo que deram tantos sacerdotes de ontem e de hoje; o pároco e os demais sacerdotes, inclusive os religiosos, estão chamados a testificar a comunhão na vida cotidiana.

Como os leigos podem contribuir para o desenvolvimento pastoral de uma paróquia?
Fr. Nikolaus Schöch: O pároco não está obrigado a realizar pessoalmente todas as atividades na paróquia, mas a procurar que se realizem de maneira oportuna, conforme a reta doutrina e a disciplina eclesial, no seio da paróquia, segundo as circunstâncias e sempre sob a própria responsabilidade.

O ideal não é uma paróquia onde o sacerdote faz tudo. O sacerdote deve ajudar os leigos a descobrirem e realizarem sua vocação específica em comunhão com os demais fiéis. O realizador desta comunhão e desta pertença de comunhão do presbítero ao povo de Deus é o Espírito Santo. Dado que Ele impregna e motiva todas as áreas da existência, então também penetra e configura a vocação específica de cada um. Assim se forma e desenvolve a espiritualidade própria de presbíteros, de religiosos e religiosas, de pais de família, de empresários, de catequistas etc. Cada uma das vocações tem uma forma concreta e distintiva de viver a espiritualidade, que confere profundidade e entusiasmo ao exercício de suas tarefas.

O apostolado dos leigos se desenvolve em boa parte das associações e movimentos que atuam em plena sintonia eclesial e em obediência às diretrizes dos pastores. É preciso promover e sustentar as associações de fiéis.

No entanto, deve-se evitar no tecido paroquial qualquer gênero de exclusivismo ou de isolamento por parte de grupos individuais. Porém, não faltam, também desde dentro da paróquia e das associações, perigos como a burocratização, o funcionalismo, o democratismo, a planificação que atende mais a gestão que a pastoral.

Qual é o principal desafio de um pároco na sociedade contemporânea?
Fr. Nikolaus Schöch: Falta considerar cada paróquia a partir da perspectiva global da diocese e não ao contrário; e falta levar em consideração em sua justa medida o fiel leigo, o religioso e outros consagrados na vida da Igreja, tanto no interior da própria comunidade cristã como no que diz respeito à sua presença no mundo.

Cresce a consciência de que, além dos problemas da cultura pós-moderna, apresentam-se outros, como o da alta porcentagem de católicos que vivem longe da prática religiosa, o problema da diminuição drástica, por diversas causas, do número daqueles que se declaram católicos etc.; existe, por outro lado, o problema do crescimento extraordinário das chamadas “seitas evangélicas pentecostais” e de outras seitas.

Frente a esta realidade, é urgente acolher com generosidade o convite feito pelo Santo Padre Bento XVI, no Brasil, a uma verdadeira “missão”, dirigida aos que, inclusive tendo sido batizados, por diversas circunstâncias históricas, não foram suficientemente evangelizados por nós.

Nesta tarefa, é preciso aproveitar os meios de comunicação para evitar a expansão de uma cultura que tenta rejeitar Deus e está profundamente marcada pelo secularismo, pelo relativismo, pelo cientificismo, pela indiferença religiosa, pelo agnosticismo e por um laicismo frequentemente militante e antirreligioso.

A pastoral que se leva a cabo em uma paróquia muitas vezes é ampla e diversa demais, de acordo com a realidade concreta de cada uma, como, por exemplo, a pastoral familiar, da saúde, entre outras. A que aspectos da pastoral é preciso dar prioridade no mundo de hoje, frente ao futuro da Igreja?
Fr. Nikolaus Schöch: Penso que as sete prioridades que o servo de Deus João Paulo II mencionou na Novo millenio ineunte ainda são atuais: santidade, oração, santíssima Eucaristia dominical, sacramento da Reconciliação, primazia da graça e escuta e anúncio da Palavra.

Segundo o exemplo oferecido pelo santo pároco de Ars e por outros sacerdotes exemplares que exercitaram seu ministério, está no centro da atividade pastoral do pároco a administração dos sacramentos, particularmente da Eucaristia e da Penitência.

Entre as numerosas atividades que uma paróquia desenvolve, nenhuma é tão vital ou formativa para a comunidade como a celebração dominical do dia do Senhor e de sua Eucaristia. Cada paróquia, em definitivo, está fundada sobre uma realidade teológica, porque ela é uma comunidade eucarística.

Por esta razão, o Concílio Vaticano II recomenda: “procurem os párocos que a celebração do sacrifício eucarístico seja o centro e o ponto culminante de toda a vida da comunidade cristã” (Christus Dominus, n. 30). Isso significa que a paróquia é uma comunidade idônea para celebrar a Eucaristia, na qual se encontram a raiz viva da sua edificação e o vínculo sacramental do seu existir em plena comunhão com toda a Igreja.

Uma atenção particular deve ser dada pelos párocos às confissões individuais, no espírito e na forma estabelecidos pela Igreja; também à direção espiritual a quem a solicitar. Não se pode evangelizar a longo prazo sem dar a primazia a Deus e sem vida interior. Poderíamos dizer que a crise moral e social da nossa época, como os problemas apresentados tanto pelas pessoas como pelas famílias, fazem sentir com mais força esta necessidade de ajuda sacerdotal na vida espiritual. É preciso recomendar vivamente aos presbíteros um novo conhecimento e uma nova entrega ao ministério do confessionário e da direção espiritual, também por causa das novas exigências dos leigos, que têm mais desejos de seguir o caminho da perfeição cristã que o Evangelho apresenta.

No contexto doAno Sacerdotal, recém-iniciado, a atenção às vocações ao sacerdócio e à vida consagrada constitui uma das prioridades pastorais.

Como ajudar a evitar as nulidades matrimoniais em uma paróquia?
Fr. Nikolaus Schöch: A experiência aconselha que as investigações e expediente sejam feitas – sempre que possível – com a suficiente antecedência e espaço de tempo, porque, em seu desenvolvimento, podem surgir alguns elementos que requerem uma mais ampla e profunda investigação. Assim se evitarão precipitações de última hora, que originam nervosismo e angústia nos contraentes e em suas famílias e, sobretudo, no próprio pároco, a quem corresponde assistir o casal.

Este tempo necessário (vários meses) é especialmente aconselhável quando os contraentes são de dioceses diferentes, para permitir às respectivas cúrias os trâmites necessários.

Na atenção pastoral, na catequese e na celebração, é preciso refletir as situações especiais, como os matrimônios precipitados, para salvaguardar a boa fama e os realizados para legalizar uma situação. Em contextos de gravidez prévia, deve ficar claro que a legitimação da futura prole não é causa justificável para um casamento que, por outros aspectos, seria desaconselhável.

Estes pontos são de singular importância no exame de contraentes e testemunhas, dada a “mentalidade divorcista” que vai se contagiando nos jovens e a crescente atitude antinatalista. A indissolubilidade e a ordenação da prole devem ficar claramente não excluídas na vontade consensual. Neste aspecto, o pároco tem uma grande tarefa de discernimento e de investigação.

Nem sempre se pode supor a maturidade psicológica dos contraentes. A percepção de um defeito neste sentido deve conduzir a um exame por parte de um especialista.

Em uma sociedade global, como os sacerdotes podem imitar o Santo Cura de Ars, São João Maria Vianney, em seu ministério sacerdotal?
Fr. Nikolaus Schöch: Em um mundo em que a visão comum da vida compreende cada vez menos o sagrado, em cujo lugar o “funcional” se converte na única categoria decisiva, a concepção católica do sacerdócio poderia correr o risco de perder sua consideração natural, às vezes inclusive dentro da consciência eclesial.

A paróquia de Ars era uma paróquia de camponeses e muito pequena, com somente 230 fiéis. No entanto, recorda-se que São João Maria Vianney não só ajudava os sacerdotes doentes nas paróquias vizinhas, mas ofereceu seu constante serviço de confessor e de diretor de almas a milhares de fiéis que chegavam em número sempre crescente, de todas as partes da França.

Com frequência, tanto nos ambientes teológicos como também na prática pastoral concreta e de formação do clero, confrontam-se, e às vezes se opõem, duas concepções diferentes do sacerdócio, descritas recentemente pelo Papa Bento XVI:

a) A concepção social-funcional, que define a essência do sacerdócio com o conceito de “serviço”: o serviço à comunidade, na realização de uma função. A concepção de serviço corresponde à primazia da Palavra e do serviço do anúncio.

b) A concepção sacramental-ontológica, que naturalmente não nega o caráter de serviço do sacerdócio, mas “o vê ancorado no ser do ministro e considera que este ser está determinado por um dom concedido pelo Senhor através da mediação da Igreja, cujo nome é sacramento” (Ratzinger, J. Ministério e vida do sacerdote, in: Elementi di Teologia fondamentale. Saggio su fede e ministero. Bréscia: 2005, p. 165).

A concepção sacramental-ontológica está vinculada à primazia da Eucaristia, no binômio “sacerdócio-sacrifício”.

Que papel a paróquia está chamada a desempenhar no mundo de hoje? Ou já é uma instituição superada na atualidade?
Fr. Nikolaus Schöch: A paróquia é uma concreta communitas christifidelium, constituída estavelmente no âmbito de uma Igreja particular, cuja pastoral é confiada a um pároco como pastor próprio, sob a autoridade do bispo diocesano. A paróquia, por isso, será sempre atual, terá sempre um futuro. A paróquia não está destinada a desaparecer.

Isso não quer dizer que não haja necessidade de mudanças. Em várias partes da Europa, há paróquias com mais de 2 mil anos de história, com as mesmas fronteiras há séculos.

Em muitas dioceses da África e da América Latina, ainda está pendente dividir paróquias com muitas pessoas, para permitir um serviço pastoral mais próximo dos fiéis.

As paróquias cidadãs são muito povoadas. É impossível que o pároco de uma paróquia de 100 mil habitantes conheça todos os seus fiéis. Será preciso dividi-las em unidades menores e mais acessíveis. Um sacerdote do meu país trabalhou como pároco de uma paróquia rural da Bolívia que é mais extensa que uma diocese na Europa e conta com 50 comunidades. Lá também será preciso prover uma nova configuração dos limites entre as paróquias para facilitar um exercício da pastoral que seja mais próximo dos fiéis.

A paróquia certamente tem futuro. A questão é somente quantas reestruturações serão necessárias em algumas regiões para que ela possa cumprir com suas funções. Graças aos meios de transporte e de comunicação, será muito importante no futuro melhorar a comunicação entre as paróquias.

Em vários países da Europa, estão nascendo as “unidades pastorais” reguladas pelo direito particular diocesano. Estão compostas por várias paróquias e chamadas a constituir juntas uma “comunidade missionária” eficaz, que trabalha em um determinado território, em harmonia com o plano pastoral diocesano. Trata-se, em resumo, de uma forma de colaboração e de coordenação interparoquial (entre 2 ou mais paróquias limítrofes). Não se suprimem as paróquias, mas se organiza uma colaboração mútua.

Fonte: Zenit

O papel dos pais na vocação dos filhos

Ajudando a descobrir o plano de amor de Deus

O Papa explicou hoje como os pais preparam as vocações de seus filhos, ajudando-os a descobrir o plano de amor de Deus, com generosa dedicação. Ele o fez ao meio-dia de hoje no pátio da residência de Castel Gandolfo, por ocasião do Ângelus, no encontro semanal com os peregrinos.

“Quando os cônjuges se dedicam generosamente à educação dos filhos, guiando-os e orientando-os no descobrimento do plano de amor de Deus, preparam esse fértil terreno espiritual no qual florescem e amadurecem as vocações ao sacerdócio e à vida consagrada”.

“Revela-se quão intimamente estão ligadas e se iluminam mutuamente o matrimônio e a virgindade, a partir de sua comum firmeza no amor esponsal de Cristo”, acrescentou.

Para indicar a importância da família na vocação de cada pessoa, Bento XVI destacou o exemplo de numerosas “autênticas famílias cristãs que acompanharam a vida de generosos sacerdotes e pastores da Igreja” ao longo da história. Concretamente referiu-se aos esposos beatos Luigi Beltrame Quattrocchi e Maria Corsini e às famílias dos santos Basílio Magno e Gregório Nacianceno.

O Santo Padre se deteve a explicar o exemplo de Santa Mônica, cuja festa celebrou-se nesta quinta-feira, e sua influência no caminho de santidade de seu filho Santo Agostinho. Para aquele que chegou a ser bispo de Hipona, Santa Mônica se converteu em “mais que mãe, a fonte de seu cristianismo”, e ele repetiu que sua mãe “o havia gerado duas vezes”, destacou o Papa.

Também se referiu à Exortação Apostólica de João Paulo II Familiaris consortio, afirmando que “este documento, além de ilustrar o valor do matrimônio e as funções da família, solicita aos esposos um particular compromisso no caminho de santidade, que, tirando graça e força do sacramento do matrimônio, acompanha-os ao longo de toda sua existência”.

Finalmente, o Papa tomou uma parte da oração do Ano Sacerdotal para pedir que, “por intercessão do Santo Cura d’Ars, as famílias cristãs se convertam em pequenas igrejas, nas quais todas as vocações e todos os carismas, dados pelo Espírito Santo, possam ser acolhidos e valorizados”.

Fonte: Zenit

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A origem e a função do Bispo

Por Dom Benedicto de Ulhôa Vieira

O arcebispo de Uberaba, MG, Dom Benedicto de Ulhôa Vieira publicou um artigo, no site do Jornal da Manhã, da cidade, onde explica a origem e a função do bispo - termo e função que vem sendo apropriado e utilizado indiscriminadamente por algumas seitas e denominações protestantes para atrair fiéis menos esclarecidos. Eis o artigo, na íntegra:

"Vem-se notando na imprensa o hábito lamentável de designar com o título de "bispo", o pastor ou o líder de qualquer agrupamento religioso.

Reflitamos: se alguém colocar na porta de seu escritório ou de sua residência uma placa indicativa com seu nome e – sem o ser – acrescentar "médico", "advogado", "professor" ou outra profissão, pode ser processado por falsidade profissional. Igualmente com o termo "bispo". Daí a necessidade de se ter noção exata do que seja o uso correto do termo.

No início da pregação evangélica, os apóstolos de Cristo escolheram colaboradores que, após a sua morte, lhes sucedessem no governo das comunidades nascentes e na pregação da mensagem cristã. Inicialmente eram chamados de "sucessores dos apóstolos", como nos informa Clemente Romano, no ano 96 da era cristã, na bela e conhecida Carta à Igreja de Corinto.

A missão destes sucessores era responsabilizar-se pelas comunidades que se formaram ao redor dos apóstolos, supervisionando a sua vida evangélica. Daí o verbo "episkopein" (supervisionar), de que vem o substantivo "epískopos": o que zela como guarda e protetor, por supervisionar o rebanho. Em latim "epíscopus" e, em português bispo, isto é: o que tem a nobre missão, como autêntico sucessor dos apóstolos, de responsabilizar-se pela comunidade dos fiéis.

Hoje, quem escolhe e nomeia o bispo é o sucessor de São Pedro, o Papa. O eleito recebe a plenitude do sacramento da Ordem pela "keirotonia", isto é: imposição das mãos de três outros bispos e pela unção e oração consecratória. Há, pois, uma corrente genealógica ascendente, que chega até um dos doze apóstolos, do qual o bispo atual é verdadeiro sucessor.

Não fica pois, difícil entender que esta função de suceder a um dos doze apóstolos, função de superintender o rebanho de Cristo – "episkopein" – não pode ser usurpada. O despreparo teológico (ou ousadia) chega até a usar o termo no feminino!

A autoridade do bispo, sucessor dos apóstolos, vem da palavra de Jesus aos doze: "todo poder me foi dado no céu e na terra. Ide pois: batizai e ensinai que observem o que lhes ensinei." (Mt 28,19ss).

Triste saber que o termo que designa o poder espiritual de zelar pela Igreja, transmitido por Jesus Cristo aos doze apóstolos e, posteriormente aos sucessores, seja usurpado e vulgarizado, como vem acontecendo de algum tempo para cá. Esta explicação teológica da palavra "bispo" e sua função nos mostram que seu uso atual para designar qualquer líder religioso, não é apropriado e correto."

Fonte: Rádio Vaticana

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Semana da Família

Por Dom Orani João Tempesta
Em 11 de Agosto de 2009


A semana que se inicia com o Dia dos Pais é a escolhida como Semana Nacional da Família, que quer ajudar a reforçar os laços familiares de nosso povo, proporcionando, assim, que as células saudáveis do tecido social ajudem o nosso corpo a viver melhor.

O recente Documento de Aparecida consta que “família é um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos e é patrimônio da humanidade inteira. Em nossos países, uma parte importante da população está afetada por difíceis condições de vida que ameaçam diretamente a instituição familiar. Em nossa condição de discípulos e missionários de Jesus Cristo, somos chamados a trabalhar para que esta situação seja transformada e que a família assuma seu ser e sua missão no âmbito da sociedade e da Igreja”. (DAp 451)

A Constituição Apostólica sobre a Igreja no mundo de hoje, do Concílio Ecumênico Vaticano II, “Gaudim et Spes” (Alegria e esperança), afirma que o bem-estar da pessoa e da sociedade humana está intimamente ligado com uma favorável situação da comunidade conjugal e familiar, porém, alerta aos cristãos sobre questões que a afligem e lhe tiram o brilho desta comunidade de amor: “Porém, a dignidade desta instituição não resplandece em toda parte com igual brilho. Encontra-se obscurecida pela poligamia, pela epidemia do divórcio, pelo chamado amor-livre e outras deformações. Além disso, o amor conjugal é muitas vezes profanado pelo egoísmo, amor ao prazer e por práticas Ilícitas contra a geração.”

Em brevíssimas palavras, aqui está toda a problemática da família no mundo de hoje, situação que no momento está mais agravada por distorções geradas por modelos de família que não se abrem para a vida, situação esta infelizmente legalizada em alguns países.

Bem, entretanto, se fizermos uma nova leitura do livro do Gênesis, vemos com muita clareza que o Criador, no momento que deu gênese ao ser humano, homem e mulher, os fazendo à sua imagem e semelhança, instituiu, também, a família, que reflete a mesma semelhança da família trinitária, pois Deus não é solitário, mas uma família; Pai (Criador), Filho (Redentor), Espírito Santo (Deus amor): “Deus criou o homem à sua imagem, criou-os à imagem de Deus; ele os criou homem e mulher”I (Gn 1, 27). Abençoando os novos seres que criou Deus, disse-lhes: “Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e dominai a terra”(Gn, 1,28). Em outra narrativa da criação, aliás, a primeira do livro das origens, o Gênesis, o Criador, uma vez criado o homem à sua imagem e semelhança disse: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer-lhe uma companheira que lhe corresponda.” (Gn 2, 18). E, criada a mulher, que tem a mesma dignidade do homem, Adão, o pai dos viventes, admirado, exclamou: “Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne de minha carne”! “Ela será chamada ´humana´, porque do homem foi tirada.” “Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá a sua mulher, e eles serão uma só carne.”(Gn, 2, 23).

Pois bem, em sendo a família humana uma instituição de origem divina, com semelhança da família trinitária, ela somente readquirirá a dignidade perdida quando voltar a ser o reflexo da família trinitária, na qual Deus não só é Pai, mas paternidade, Jesus Cristo não é apenas filho, mas filiação e o Espírito Santo, não é somente união, mas unidade.

A família, então hoje, para cumprir sua missão de promotora do bem-estar do ser humano terá que cada vez mais ser poço de paternidade, berço da filiação e comunidade de amor.

É bom relembrar o compromisso solene do casamento cristão, que sempre é proclamado pelos noivos perante a comunidade eclesial: “Recebo-te por minha (por meu) esposa (esposo) e te prometo ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-te e respeitando-te todos os dias de minha vida.”

Vê-se, pois, que o vínculo matrimonial que nasce do amor recíproco se exprime por esse juramento conjugal, que começa e se realiza diante da infinita majestade de Deus por aquele mesmo amor com que o Pai nos amou no seu Filho, Jesus Cristo, e nos santifica pelo Espírito desse Amor, que é o Espírito Santo.

“Os esposos participam da função redentora de Cristo ao assumirem integralmente, por vocação divina, a finalidade para a qual o matrimonio foi instituído. Cada união nasce pelo pacto entre um casal, mas com um conteúdo divinamente estabelecido, a unidade e a indissolubilidade, ordenado à procriação da prole.” (Alocução de João Paulo II, aos fieis da Arquidiocese de Campo Grande, quando de sua visita ao Brasil).

Sejam oportunas pequenas reflexões sobre a família, remetendo o leitor cristão para duas passagens lindíssimas da Sagrada Escritura: A primeira do Livro de Tobias, quando este, após ter aceitado Sara como sua esposa, rezou a Deus e terminou sua oração desta forma: “Agora, não é por luxúria que me caso com essa minha irmã, mas com reta intenção. Tem misericórdia de mim e dela, e que possamos chegar, ambos, a uma ditosa velhice.” (Tobias. 8,7). A segunda vem do Livro de Rute, mulher maobita, Nora de Noemi, de cuja descendência nasceu David, o grande rei de Israel: “Booz casou-se com Rute, tornando-a sua esposa. Eles se uniram e, com a graça do Senhor, ela ficou grávida e deu à luz um filho. As mulheres disseram a Noemi: “Bendito seja o Senhor, que hoje não te deixou sem redentor e preservou o nome de tua família em Israel. Que ele venha restaurar a tua vida, sustentar-te na velhice, pois nasceu de tua nora, que te ama e para ti está sendo melhor que sete filhos.” (Rute, 4, 14 e 14).

Nesse contexto, celebramos, em toda a Igreja no Brasil, a Semana Nacional da Família, entre os dias 9 e 15 de agosto de 2009. A Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da CNBB e a Comissão Nacional da Pastoral Familiar lançaram o tema deste ano que é: “Família, Igreja Doméstica, Caminho para o Discipulado”, em articulação e comunhão com a Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-catequética num compromisso conjunto com o Ano Catequético. Os subtemas publicados no subsídio “hora da família” nos ajudam a aprofundar esse importante assunto e, principalmente, nos motiva a viver ainda mais como famílias cristãs.

Celebrando em nossas comunidades e redes de comunidade a Semana Nacional da Família, a Igreja no Brasil quer, uma vez mais, salientar a importância da família, que, talvez mais que outras instituições, tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura. Por isso, é fundamental um olhar atento, dirigido com carinho, afeto e atenção à família, patrimônio da humanidade e tesouro dos povos.

O Episcopado Brasileiro lançou, em abril passado, o “Manifesto em favor da Família”, onde reafirmam que “Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, homem e mulher ele os criou (cf. Gn 1,27), destinando-os à plena realização na comunhão de vida, de amor e de trabalho. Por essa razão, o matrimônio e a família constituem um bem para os esposos e a sociedade. O amor conjugal aberto à geração e educação dos filhos proporciona a experiência de paternidade e maternidade, através das quais os pais se tornam colaboradores do Criador”.

Assim, valorizando a família autêntica, de marido e mulher, com uma família bem estruturada, a Igreja no Brasil conclama a todos para que prossigam no objetivo pastoral de Evangelizar pela Família e para a Vida, continuando com o empenho sócio-evangelizador pela promoção da vida, do matrimônio e da família, lembrando sempre do importante e insubstituível papel subsidiário da família cidadã para o bem da sociedade. Por isso conclamamos (a) todas as forças vivas para realçar que “os meios de comunicação, os poderes públicos, os profissionais de saúde, as universidades, o sistema educacional, as empresas, as instituições e os organismos não-governamentais e todas as igrejas sejam conclamados a promover os valores da família e agirem como seus amigos”, enfatizam os bispos brasileiros.

Por isso, ao saudar os pais pelo seu dia, como o fiz solenemente aos pés do Cristo Redentor, domingo passado, quero convidá-los para que junto de sua esposa e filhos sejam cada vez mais comprometidos com a valorização de sua família, e para não medirmos esforços em protegê-la e defendê-la das grandes pressões externas. Que a família brasileira seja respeitada como espaço privilegiado para a existência e a convivência humana! Que a Sagrada Família, Jesus, Maria e José, abençoe nossas famílias!

Fonte: Portal da CNBB

Reflexão sobre o Dia dos Pais

Por Dom Orani João Tempesta
Arcebispo da arquidiocese de Belém (PA)


Comemora-se no Brasil, neste domingo, o Dia dos Pais. A história se repete mais ou menos como ocorreu com o "Dia das Mães". Alguém desejoso de homenagear seu pai a quem admirava pela garra, pelo exemplo de ter criado os filhos após a morte da esposa começa a comemorar esse dia. A idéia aos poucos se difunde em seu próprio país, que segundo a maioria das pesquisas, seria nos Estados Unidos, e depois se expande para outros países.

A comemoração do Dia dos Pais é diferente conforme cada país. Encontramo-la associada ao dia de São José, à festa da Ascensão do Senhor, em junho, em fevereiro e aqui no Brasil em agosto. Também o modo de comemoração varia: de celebrar o homem como defensor da pátria ao encontro das famílias ou aos passeios de bicicleta, até a distância de não se comemorar muito, no máximo enviando um cartão.

No Brasil a festa está associada ao dia de São Joaquim, pai de Maria, a mãe de Jesus. A comemoração do dia de São Joaquim mudou conforme o tempo: originalmente era celebrada no dia 20 de março, associada à de São José; depois foi transferida para o dia 16 de agosto, para associar-se ao triunfo da Filha na celebração da Assunção, no dia precedente, e Paulo VI, com a reforma do calendário feita pelo Concílio Vaticano II, associou num único dia – 26 de julho – a celebração de São Joaquim e Santana como ocorre até hoje. Como em 1879 o Papa Leão XII estendeu a festa de São Joaquim para ser celebrada em toda a Igreja ela tornou-se então conhecida mundialmente.

O Dia dos Pais surge no início do século XX, e no Brasil conta-se que teria sido comemorado pela primeira vez em 1953, no dia de São Joaquim, patriarca da família. Nessa época, o dia de São Joaquim já celebrado mundialmente, era comemorado no dia 16 de agosto. Desse dia, passar a festa para o segundo domingo de agosto, foi apenas um passo.

A festa surge portanto como homenagem e valorização dos pais de família e ligada, grande parte, a figuras paternas cristãs: São José em alguns países, São Joaquim, no Brasil.

Mas como sempre acontece, esses objetivos ficaram na penumbra: o que temos hoje é a grande divulgação e apelo comercial pelo Dia dos Pais. É tempo de aumentar as vendas, é tempo de dar presentes, é tempo de ter mais lucro. Isso faz parte de nossa sociedade, que procura em “tudo levar vantagem” e com isso muitas vezes percorre caminhos que nem sempre ajudam a preservar valores importantes da vida humana.

É interessante constatar que o “Documento de Aparecida” traz no capítulo IX, que trata de Família, Pessoas e Vida, uma grande parte dedicada à responsabilidade do homem e pai de família (9.6). Entre outras questões, diz o documento: "O homem, desde a sua especificidade, está chamado pelo Deus da Vida a ocupar um lugar original e necessário na construção da sociedade, na geração da cultura e na realização da história. Profundamente motivados pela bela realidade do amor que tem sua fonte em Jesus Cristo, o homem se sente fortemente convidado a formar uma família. Ali, em uma essencial disposição de reciprocidade e complementariedade, vivem e valorizam para a plenitude de sua vida, a ativa e insubstituível riqueza da presença da mulher, que permite reconhecer mais nitidamente sua própria identidade".

Esse mesmo documento denuncia que pela falta até mesmo de espaços vitais e os expõe ao poder desintegrador da cultura atual, como também que essa mesma cultura vê no pai de família apenas um instrumento de produção e ganância, relegando-o a um papel de mero provedor familiar.

Por isso, se pede para repensar o domingo como dia de trabalho e também dar uma especial atenção pastoral para o pai de família, favorecendo a ativa participação dos homens gerando e promovendo espaços em nossas comunidades.

Iniciando nesse dia dos pais, temos nesta semana a "Semana Nacional da Família" que tem como lema: "Espiritualidade familiar: Encontro com Deus e com o próximo". Para as atividades desta semana todos os grupos ligados à Dimensão Familiar estão trabalhando para fortalecer os laços familiares e para centrar as preocupações deste ano na espiritualidade familiar, ajudando as famílias a ser realmente aquilo que são: células vivas e sadias de nossa sociedade!

Tanto teríamos para refletir sobre o Dia dos Pais e a Semana da Família, mas todos estão convidados a procurar sua comunidade paroquial e aproveitar destes dias para participarem das várias atividades que estarão ocorrendo, aprofundando, assim, nossa visão cristã do Pai e da Família.

Nestes tempos de tantas mudanças e transformações, encontrar o justo equilíbrio supõe uma grande espiritualidade! A todos os pais e às famílias, uma bênção muito especial.

Fonte: Canção Nova Notícias

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Um simples padre de aldeia

Cardeal Odilo Scherer narra trajetória de São João Maria Vianney
São Paulo, segunda-feira 10 de agosto de 2009 (ZENIT.org).

A Igreja recorda o 150º aniversário da morte de São João Maria Vianney, o Cura de Ars, falecido em 4 de agosto de 1859. Para a maioria dos leitores, certamente, trata-se de um ilustre desconhecido. Então vamos situá-lo no tempo e no espaço: de fato, os “santos” católicos não são personagens imaginários nem produto da fantasia, mas pessoas reais e históricas.

Nasceu em 8 de maio de 1786, em Dardilly, ao norte de Lyon. Na França ouviam-se discursos inflamados por toda parte contra a burguesia e o regime absolutista, reclamando por uma nova ordem social e política; a Bastilha já balançava e a Revolução Francesa estava para explodir. Também contra o clero as invectivas eram virulentas: no velho regime, boa parte dele formava uma classe à parte e tinha muitos privilégios. A bem da verdade, porém, deve-se dizer que, na mesma época, na França, também floresciam por toda parte obras sociais suscitadas e mantidas pelo clero e pelas organizações da Igreja para o benefício do povo esquecido e explorado.

Nesse contexto, o jovem Vianney quis ser padre. Não era sem riscos, pois a vigilância da polícia revolucionária estava por toda parte. Durante vários anos, favoráveis e contrários à Revolução dividiam dolorosamente a Igreja; símbolos religiosos eram varridos dos espaços públicos por uma onda de intolerância religiosa, em nome do Estado laico instaurado pela Revolução; padres foram perseguidos, jogados na cadeia e também assassinados. Quando a paz voltou, Vianney, já com 20 anos, foi ser alfabetizado; queria estudar e na sua aldeia não havia escola. Teve sérias dificuldades nos estudos, sobretudo por causa do latim, matéria obrigatória para os estudos eclesiásticos e para o desempenho das funções sacerdotais. Já houve quem o descreveu como “burrinho”, talvez por desprezo, pois sem inteligência ele não era. Ao visitar sua humilde casa paroquial em Ars, ainda hoje existente, eu mesmo pude observar ali vários livros bem volumosos, que lhe pertenceram, sublinhados e anotados à margem. Eram até muitos para uma época em que os livros não eram abundantes nem acessíveis, como hoje.

Foi ordenado padre em 13 de agosto de 1815, com 29 anos de idade. Pouco mais tarde, o arcebispo de Lyon enviou-o para Ars, camponesa numa região de bons vinhos, como o Beaujolais... Não longe de lá, vê-se ainda o que sobrou da abadia beneditina de Cluny, importantíssimo na vida religiosa e civil da França durante vários séculos. Foi destruída no tempo da Revolução; depois, uma parte pequena foi reerguida, o resto continua em ruínas. Ars, com cerca de 370 habitantes, tinha fama de “terra sem Deus”, onde fé cristã e as práticas religiosas tinham caído no esquecimento. Muitos padres largaram o serviço da Igreja, trocando o altar pelas barricadas e o catecismo pelas baionetas; a mentalidade iluminista, o anti-clericalismo e os preconceitos contra a religião haviam lançado raízes também naqueles ermos distantes de Paris.

Ao ser nomeado, o Cura recebeu esta recomendação: “em Ars não há muito amor a Deus, mas o senhor o despertará!” Era como ser mandado ao deserto, para fazê-lo reflorir... O Cura não se deixou desanimar e acolheu o encargo como missão recebida de Deus, pondo-se logo a trabalhar. Visitava as famílias e as pessoas doentes, rezava muito, estava sempre na igreja, dentro da qual até instalou seu simples dormitório, celebrava as missas, atendia as confissões... No início, ficava praticamente sozinho; aos poucos, porém, o povo reconheceu nele um homem de Deus.

Nos últimos anos de sua vida chegava a passar 16 horas por dia no confessionário. Seu modo de falar de Deus (le bon Dieu), sua fé límpida e a bondade no trato com todos chamaram a atenção. Seu amor pelos pobres era concreto: dava-lhes tudo, até suas roupas, e o dinheiro nem esquentava em suas mãos, mas era passado logo aos pobres. Em 1824, fundou a Casa da Providência, inicialmente, uma escola para meninas em geral e, em seguida, só para meninas abandonadas; nesta obra, Vianney conseguiu agregar a solidariedade de muitas pessoas.

A obscura aldeia de Ars, aos poucos, tornou-se conhecida em toda a região e até nos palácios de Paris. O povo chegava em peregrinações para ver e ouvir o humilde Cura. Eram pessoas simples e também instruídas, que não mediam sacrifícios para ouvirem suas pregações e conselhos, para receberem sua bênção, rezarem com ele... Outros famosos talvez ostentavam obras bem mais vistosas, faziam discursos eruditos, contavam com o poder do dinheiro e da força política. Ele não tinha nada disso para impressionar as massas. Por qual motivo, então, o povo o procurava? Por qual desejo esperavam horas e horas na fila para se confessarem com ele? Em 1830 passaram por Ars quase 30 mil pessoas, querendo encontrar o Cura; em 1840 começou a funcionar diariamente um serviço de diligências, que partiam diretamente de Lyon para Ars. Por que o povo queria ir para Ars? Para ver o quê?

Para alguns, a resposta a estas perguntas intrigantes pode ser ainda mais intrigante: para ver um simples padre de aldeia, que lhes falava do “bom Deus”. Sem milagres nem mistificações. Ele mesmo era um homem de Deus, que comunicava o fascínio do amor de Deus às pessoas e diante do qual até os pecadores mais empedernidos caíam de joelhos, pediam o perdão de seus pecados e recebiam a paz da consciência.

Por decisão de Bento XVI, Vianney é o patrono de todos os sacerdotes, comemorado cada ano no dia 4 de agosto. Ainda hoje, muitos padres, a exemplo do Cura de Ars, nos campos e nas metrópoles, gastam a vida falando do bom Deus e servindo aos irmãos. Foi pensando neles que escrevi este artigo.

Igreja no Brasil promove semana da família

Brasília, segunda-feira, 10 de agosto de 2009 (ZENIT.org).

A Igreja no Brasil celebra desde ontem a Semana Nacional da Família. Esta edição do evento tem como tema “Família, Igreja Doméstica, Caminho para o Discipulado”.

Segundo informa a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), a Semana acontece desde 1992 e o seu objetivo é defender e promover a família. Durante esta semana, as paróquias e comunidades de todo o país se engajam no evento por meio de palestras, orações, discussões e passeatas.

Segundo o assessor da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da CNBB, padre Luís Antônio Bento, os sete dias de evento vão destacar os valores da família para a sociedade e “salientar a sua importância, que, talvez mais que outras instituições, tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura”.

Para auxiliar as comunidades e paróquias que participarão da Semana Nacional da Família, a Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família e a Comissão Nacional da Pastoral Familiar lançaram o subsídio “Hora da Família”.

A obra, que já está em sua 13ª edição, com uma tiragem de 190 mil exemplares, apresenta reflexões sobre temas familiares e traz sugestões de celebrações e reflexões sobre o Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia do Catequista, Dia do Nascituro.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Matar os indignos de viver

Mentalidade eugenésica não mostra sinais de debilidade
Por Pe. John Flynn
Roma, segunda-feira 03 de Agosto de 2009 (ZENIT.org).

A ideia de que algumas pessoas são geneticamente inferiores e que é necessário eliminá-las ou evitar que se reproduzam é uma mentalidade que ainda persiste, apesar do horror que despertou após as atrocidades do regime nazista.

Em uma reveladora entrevista publicada no dia 12 de julho na New York Times Magazine, perguntava-se à juíza do Supremo Tribunal dos Estados Unidos Ruth Bader Ginsburg sobre o aborto, entre outros temas. Referindo-se à sentença do Supremo que abriu as portas ao aborto, Roe v. Wade, e às sentenças sobre financiamento do aborto, Ginsburg comentava: “francamente, na época em que se decidiu sobre Roe, creio que havia preocupação com o crescimento da população e especialmente com o crescimento de populações que não queríamos que houvesse muitas”. Esta assombrosa declaração não foi posteriormente aprofundada, e ela não deu explicações de que grupos se englobam dentro dos que “não queríamos que houvesse muitos”.

Em um artigo de opinião publicado no dia 14 de julho no Los Angeles Times, Jonah Goldberg admitia que o texto podia-se interpretar como uma mera descrição da mentalidade que se dava detrás das sentenças e, portanto, não temos certeza que Ginsburg tenha assumido estas ideias. No entanto, continuou, é verdadeiramente certo que o impulso a favor do aborto se deveu em boa parte ao desejo de eliminar os considerados não aptos. É bem conhecido, afirmava, que a fundadora do Planned Parenthood, Margaret Sanger, "foi uma racista eugenésica de primeira ordem”.

Esterilização forçada
Há apenas um mês, recordava-se a triste história das esterilizações forçadas na Carolina do Norte. Associated Press informava a 22 de junho que se inaugurou uma placa em memória das milhares de pessoas que foram esterilizadas de 1933 a 1973 por serem consideradas mentalmente incapacitadas ou geneticamente inferiores.

Segundo o artigo, o programa da Carolina do Norte tinha como objetivo os pobres e a população que vivia nos presídios ou nas instituições do Estado. Algumas eram simplesmente vítimas de violações. A Comissão de Eugenia do Estado ainda seguiu atuando até 1977, após os enfermos mentais terem sido colocados sob controle judicial.

Os programas de esterilização não são apenas uma questão de interesse histórico. No dia 22 de junho, o jornal Guardian informava que na África está-se obrigando a esterilização de mulheres portadoras do HIV. Ao que parece, é-lhes dito que o procedimento é um tratamento rotineiro para a AIDS. A Comunidade Internacional de Mulheres com HIV/AIDS está preparando uma ação contra o governo na Namíbia em nome de um grupo de mulheres soropositivas do país que foram esterilizadas contra sua vontade.

O Guardian também informava que este grupo afirma que há esterilizações forçadas na República Democrática do Congo, em Zâmbia e na África do Sul.

A mentalidade eugenésica está muito difundida, ainda que de forma sutil, quando se trata de deficientes ou de quem sofre defeitos genéticos. Com frequência estas pessoas simplesmente são eliminadas antes que tenham a oportunidade de nascer.

Os tratamentos científicos prometem intensificar as ameaças para estes deficientes. No dia 1 de julho, o Times de Londres informava que investigadores estão desenvolvendo um teste genético universal para embriões capaz de detectar quase toda enfermidade hereditária.

Em breve começarão os testes e o professor Alan Handyside, da clínica Bridge de Londres, explicava ao Times que o teste será capaz de identificar qualquer das 15 mil deficiências genéticas conhecidas. Atualmente, podem-se conhecer 2% dos defeitos genéticos através dos testes em embriões.

Bebês desenhados
O artigo comentava que esta técnica, conhecida como karyomapping, aumentará a controvérsia sobre os “bebês desenhados”. O teste poderia também ser utilizado para selecionar um embrião de determinada cor de olhos, ou com genes que afetem a altura. No entanto, seria difícil levar à prática a comprovação de muitos genes que controlam diversas facetas do desenvolvimento, porque seriam necessários centenas de embriões para garantir o perfil desejado.

Já é comum a prática de eliminar os embriões ou fetos que sofrem de síndrome de Down. Dominic Lawson criticava esta tendência em um artigo de opinião publicado no jornal britânico Independent no dia 25 de novembro passado.

Lawson, que tem um filho com síndrome de Down, observava no entanto alguns sinais de mudança. Citava Carol Boys, diretor executivo da Associação de Síndrome de Down, que afirmava que cerca de 40% das mães que dão positivo no teste de síndrome de Down continuam sua gravidez.

Em parte, explicava Boys, isso tem a ver com o fato de que as mulheres tendem a ter filhos a uma idade mais avançada. Isso significa que são mais conscientes de que é possível que não possam ter outros filhos. Ademais, estas mulheres têm carreiras assentadas que lhes dão mais confiança para enfrentar as pressões dos médicos para que abortem. Segundo Lawson, os médicos em geral têm “uma tendência visceral a favor da eugenia”.

“Isso não se baseia em uma consideração realista e atualizada das possibilidades abertas a quem tem síndrome de Down, ainda menos da felicidade que podem e de fato trazem às famílias, e inclusive à comunidade em seu conjunto”, acrescentava Lawson. A causa de tais atitudes baseia-se no fato de que as pessoas com síndrome de Down vão custar mais ao sistema de saúde, acusava.

As novas provas genéticas também apontam a síndrome de Down, anunciava um artigo de 8 de junho na seção online do American Spectator. Sequenom, uma empresa que comercializa produtos de análise genética, desenvolveu um novo teste genético para a síndrome de Down.

O teste, chamado SEQureDX, supõe-se mais seguro e cuidadoso que qualquer teste genético pré-natal anterior. “Ainda que as novas provas sejam mais seguras tanto para a mãe como para o filho, criarão uma profunda insegurança para os bebês que acusem positivo para anormalidades genéticas”, indicava o artigo.

Ao menos outras três companhias estão desenvolvendo provas genéticas parecidas e esperam tê-las no mercado antes do fim do ano.

Erros fatais
A promessa de testes mais exatos aponta a um fato ao qual não se dá relevância, quer dizer, que frequentemente bebês perfeitamente sadios sejam abortados por erros nas provas genéticas. Segundo um artigo de 16 de maio no jornal Guardian, a doutora Anne Mackie, diretora de programas de testes do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, estimava que a cada ano, na Inglaterra, 146 bebês sadios e que não tinham qualquer anormalidade se perdem como resultado de testes inexatos.

Segundo Machie, 70% dos hospitais da Inglaterra ainda usam testes que é muito provável que deem “falso positivos”, quer dizer, determinar um alto risco para as mulheres de forma errônea.

Os perigos da eugenia
No dia 21 de fevereiro, Bento XVI falava aos participantes em uma conferência convocada pela Pontifícia Academia para a Vida sobre o tema “Novas fronteiras da genética e perigos da eugenia”. Cada ser humano, afirmava o pontífice, “é muito mais que uma singular combinação de informações genéticas que seus pais lhe transmitem”.

Devemos evitar os riscos que a eugenia implica, advertia o Santo Padre. E observava que hoje se dão “manifestações preocupantes desta repulsiva prática”. Explicava que hoje “se tende a privilegiar as capacidades operativas, a eficiência, a perfeição e a beleza física, em detrimento de outras dimensões da existência que não se consideram dignas”.

“Deste modo é debilitado o respeito que é devido a cada ser humano, também na presença de um defeito no seu desenvolvimento ou de uma doença genética que poderá manifestar-se no decurso da vida, e são penalizados desde a concepção os filhos cuja vida é considerada não digna de ser vivida”, comentava o Papa.

Bento XVI animava a rechaçar qualquer forma de discriminação como um ataque a toda humanidade. Um chamado à ação que deve despertar as consciências de todo o mundo.