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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

“Verbum Domini” em cápsulas

Passagens representativas da exortação apostólica de Bento XVI
Cidade do Vaticano, sexta-feira 12 de novembro de 2010
Fonte: Agência de Informações Zenit

Apresentamos algumas das passagens mais representativas da exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, de Bento XVI, que recolhe as conclusões do Sínodo dos Bispos realizado no Vaticano em outubro de 2008, sobre "A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja".

Objetivo: "Desejo assim indicar algumas linhas fundamentais para uma redescoberta, na vida da Igreja, da Palavra divina, fonte de constante renovação, com a esperança de que a mesma se torne cada vez mais o coração de toda a atividade eclesial." (n. 1)

Religião da Palavra, não do livro: "A fé cristã não ser uma 'religião do Livro': o cristianismo é a 'religião da Palavra de Deus', não de 'uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo'." (7)

Tradição e Escritura: "É a Tradição viva da Igreja que nos faz compreender adequadamente a Sagrada Escritura como Palavra de Deus." (17)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

“Verbum Domini”, exortação apostólica em sintonia com “Dei Verbum”

Segundo o prefeito da Congregação para os Bispos, Marc Ouellet
Cidade do Vaticano, quinta-feira 11 de novembro de 2010
Por Carmen Elena Villa
Fonte: Agência de Informações Zenit

A exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini, divulgada hoje, "retoma a mesma mensagem 45 anos depois" da constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II.

Assim afirmou o prefeito da Congregação para os Bispos, cardeal Marc Ouellet PSS, durante a apresentação do documento pontifício, realizada hoje na Sala de Imprensa da Santa Sé. Na coletiva de imprensa, intervieram também: Dom Nikola Eterovic, secretário-geral do Sínodo dos Bispos; seu subsecretário, Dom Fortunato Frezza; e Dom Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura.

A Verbum Domini, escrita por Bento XVI, é fruto da 12ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus, realizada de 5 a 26 de outubro de 2008.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Reforma da Igreja começa no coração de cada um

Papa propõe o exemplo de São Carlos Borromeu nos 400 anos de sua canonização
Cidade do Vaticano, sexta-feira 5 de novembro 2010
Fonte: Agência de Informações Zenit

Bento XVI instou a reformar a Igreja começando por cada um de seus membros e detalhou algumas indicações para levar a cabo esta necessária purificação, propondo o exemplo de São Carlos Borromeu. Esta foi a mensagem dirigida ao arcebispo de Milão, cardeal Dionigi Tettamanzi, por ocasião do quarto centenário da canonização deste santo, divulgada ontem pela Sala de Imprensa da Santa Sé.

"Em tempos escurecidos por numerosas provas para a comunidade cristã, com divisões e confusões doutrina-is, com a opacidade da pureza da fé e dos costumes e com o mau exemplo de vários ministros sagrados, Car-los Borromeu não se limitou a deplorar ou a condenar, nem simplesmente a desejar a mudança nos outros, se-não que começou a reformar sua própria vida", destacou.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Diálogo ecumênico, prioridade para Bento XVI

Avança notavelmente com os ortodoxos, mas se mantêm as incertezas com os luteranos
Por Inma Álvarez
Cidade do Vaticano, terça-feira, 20 de janeiro de 2009 (ZENIT.org).

O diálogo ecumênico é uma prioridade para Bento XVI, como foi para todos os papas desde João XXIII e o Concílio Vaticano II. Este diálogo avança, ainda que de forma desigual: com os ortodoxos se deram grandes passos adiante, mas continuam existindo incertezas com as comunidades surgidas da Reforma. Assim afirma o secretário do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, o bispo Brian Farrell L.C., no primeiro de uma série de artigos que estão sendo publicados por L'Osservatore Romano, por ocasião da anual Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Dom Farrell explicou que para o atual pontífice, o diálogo ecumênico é uma «questão prioritária», como manifestam «seus numerosos encontros e discursos de caráter ecumênico».

Ele aludiu precisamente ao último encontro que os membros deste dicastério tiveram com o Papa, em 12 de dezembro passado, como referência para explicar a que ponto se encontra atualmente o diálogo com os «irmãos separados». Farrell afirmou, recordando a intervenção do Papa naquele encontro, que enquanto o diálogo com os ortodoxos «avançou de forma significativa», ainda não aconteceu o mesmo com as igrejas e comunidades da Reforma.

Como o Papa afirmou, houve um grande «progresso no diálogo da caridade» entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas e Orientais, com intercâmbio de visitas entre os prelados de ambas as confissões, e com «um sincero espírito de amizade entre católicos e ortodoxos, que foi crescendo nos últimos anos». «Precisamente este progresso no ‘diálogo da caridade’ permitiu que o ‘diálogo teológico’ entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa obtivesse resultados notáveis, inclusive inesperados», explicou.

Contudo, lamentou, «continua havendo um interrogante difuso, cercado de certa desconfiança, sobre os resultados do diálogo com as comunidades e igrejas da Reforma». O objeto da passada plenária do dicastério em dezembro teve por objeto examinar a que ponto está este diálogo nas quatro frentes que a Igreja tem aberto neste sentido: com a Federação luterana mundial, com o Conselho Metodista, com a Comunhão Anglicana e com a Aliança Mundial das Igrejas Reformadas.

Nestes 40 anos de diálogo, Dom Farrel constatou que, ainda que «tenham sido superados muitos preconceitos e incompreensões do passado», contudo perduram antigas diferenças. Estas diferenças vão em duas direções: por um lado, a relação entre a Escritura e a Tradição, e por outro, a natureza da Igreja de Cristo.

No primeiro aspecto, Dom Brian Farrell explicou que, ainda que se tenha chegado a um consenso em admitir que não há contraposição entre a Escritura e a Tradição (a Escritura existe graças à tradição apostólica das origens), não há acordo, entre outras questões, sobre o «magistério competente» para interpretá-la.

No segundo aspecto, ainda que se tenha dado um grande passo com a Declaração Conjunta sobre a Justificação, em uma das implicações deste desacordo, ou seja, na natureza da própria Igreja, continua havendo uma «divisão profunda». Com aquela declaração, explica o bispo irlandês, admitiu-se que não há contraposição entre justificação pela fé e santificação através das obras.

Contudo, «católicos e protestantes continuam profundamente divididos na concepção da realidade da Igreja, entre uma visão ao mesmo tempo espiritual e institucional – católica – e uma visão somente espiritual – protestante».

«Apesar de que nenhuma destas questões tenha sido resolvida no sentido de um consenso pleno, e ainda que apareçam novas dificuldades no horizonte – explica Dom Farrell –, as convergências alcançadas corroboram e aprofundam o sentido da real, ainda que incompleta, comunhão existente sobre a base de um único batismo e de outros muitos elementos de fé e de vida cristã preservados da tradição antiga.»

Após recordar que o ecumenismo é «um dom de Deus», o secretário declarou que ainda que «os diálogos não podem por si mesmos garantir a realização do objetivo final do movimento ecumênico, que é a unidade eucarística», não obstante «constituem uma base sólida e um incentivo a realizar o que é a vontade do Senhor e a aspiração de muitos cristãos».

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Opiniões pessoais não fazem parte das homilias: é a Igreja que ensina

Entrevista ao professor Salvatore Vitiello, da Universidade do Sacro Cuore de Roma

Por Miriam Díez i Bosch
Roma, sexta-feira, 17 de outubro de 2008 (ZENIT.org).


As homilias devem falar da vida, e não do que o sacerdote pensa, porque os fiéis têm direito, participando da Santa Missa, a escutar o que a Igreja ensina, não o que um sacerdote pensa ou acha que seja certo em um momento determinado; as opiniões pessoais não devem nunca ser objeto de pregação pública, porque assim se faria uma instrumentalização da homilia. Estas são algumas das idéias do professor Salvatore Vitiello, entrevistado pela ZENIT por ocasião do Sínodo sobre a Palavra, que tratou também da problemática ligada às homilias.


Vitiello é professor de Teologia Sacramental no Instituto Superior de Ciências Religiosas de Turim, e de Introdução à Teologia na Universidade Católica do Sacro Cuore de Roma.


O Sínodo está preocupado com as homilias: às vezes são pobres e podem induzir os fiéis a buscarem «mais conteúdo» nas seitas. Que soluções podem ser dadas?
Vitiello: Antes de tudo, eu não generalizaria, afirmando que as homilias são «pobres». Há muitíssimos exemplos de grandes pregadores, realmente capazes de transmitir, com eficácia e autêntico conteúdo espiritual, o Evangelho do Nosso Senhor. Certamente, o problema existe e tem uma dupla raiz: no auditório e no pregador.



É necessário, no primeiro caso, ter presente que a comunicação, nas últimas décadas, mudou muito, trazendo consigo não só novos costumes, mas autênticas mudanças antropológicas, cujos efeitos se verão em um futuro próximo.


A possibilidade de comunicar, em qualquer lugar e instante, com quem se quer, a velocidade e rapidez da comunicação, a introdução dos mais modernos meios, constituem, talvez mais que a televisão, uma verdadeira e autêntica «revolução». Em conseqüência, nem sempre se está preparado para escutar uma homilia que, na realidade, configura-se como um discurso, uma narração, que prevê, para ser compreendida, o treinamento para um tipo de comunicação hoje não tão habitual.


Certamente, muito, eu diria que muitíssimo, depende do pregador. Os sacerdotes são conscientes de não ser «franco-atiradores», mas de exercer o próprio ofício sacerdotal por um mandato explícito de Cristo, através da Igreja. Segue daí que, também a pregação, que é um dos mais insignes serviços ministeriais, deva obedecer a este critério.


Na homilia, que não por acaso está reservada aos ministros sagrados e não pode ser pronunciada por fiéis leigos, exercita-se, de modo particular, o que a Igreja chama de munus decendi, o dever de ensinar. Ensinar o quê? Ensinar como?


A resposta à primeira pergunta é muito simples: Nada que não seja a pura doutrina da Igreja. Os fiéis têm o direito, participando da Santa Missa, de escutar o que a Igreja ensina, não o que um sacerdote, em certo momento, pensa ou acha justo. As opiniões pessoais não deveriam jamais ser objeto de pregação pública, porque se produziria assim uma instrumentalização da homilia.


Partindo do explícito kerygma cristão, segundo o qual Jesus de Nazaré é o Senhor Ressuscitado, Deus feito homem por nós e nossa salvação, é necessário saber apresentar de forma orgânica, progressiva e tendencialmente completa, todas as verdades da fé. É impensável que se pregue exclusivamente, por exemplo, sobre o amor, sem mencionar nunca a verdade e a justiça; ou que as homilias sofram uma «deriva moralista» insustentável, nunca oportunamente sub-rogada às razões sobrenaturais pelas quais vale a pena comportar-se de uma forma ao invés que de outra.


O ponto talvez mais delicado seja «como» pregar e ensinar. Creio que o primeiro fator é a fé e a convicção profunda, nutrida pela oração e a preparação do próprio pregador. O povo santo de Deus tem um «sexto sentido», sensus fidei (sentido da fé), com base no qual reconhece imediatamente se os sacerdotes falam de coisas das quais crêem e têm experiência, ou não.


É também fundamental aprender a suscitar as perguntas últimas no coração dos homens. É completamente inútil dar respostas, ainda que sejam dogmaticamente corretas ou moralmente justas, se no coração não se suscitou uma pergunta, um desejo. A pergunta e o desejo se suscitam através de um encontro pessoal (como confirma o Papa na encíclica Deus caritas est, n. 1), que desperte no coração o que parecia adormecido.


Se a homilia fala de «coisas que têm a ver com a vida», e dá respostas às perguntas fundamentais da existência de cada um, já não será cansativa! Talvez poderá ser discutida ou não compartilhada, mas não será cansativa.


É absolutamente necessário sair, também no que diz respeito à pregação, do «túnel do relativismo», dessa ditadura que impede anunciar a diferença entre verdade e falsidade, bem e mal, pecado e virtude.


Muitos jovens não conhecem a Sagrada Escritura. Há formas de corrigir esta lacuna?
Vitiello: Se uma pessoa, jovem ou adulta, não sabe algo é porque ainda não encontrou alguém que lhe faça interessar-se: alguém capaz de despertar nela o interesse por essa realidade. A Bíblia não é uma exceção deste critério. Quem não se encontrou com Cristo, vivo e presente em seu Corpo, que é a Igreja, que são os cristãos, os que hoje pertencem ao Senhor, dificilmente poderá interessar-se, de maneira correta, na Sagrada Escritura.



Existe, neste sentido, também um grave problema cultural: Se tirarmos do patrimônio comum, inclusive mais elementar, a referência ao Antigo e ao Novo Testamento, não compreenderemos quase nada da história da humanidade.


Tanto desde o ponto de vista artístico (pictórico, escultórico, musical ou arquitetônico) como quanto à estruturação jurídica e moral da sociedade, se não houver um conhecimento mínimo das Sagradas Escrituras hebraico-cristãs, a maior parte dos dados ficará completamente indecifrável.


Os meios para esta «operação cultural» são muitos e deveriam estar voltados sobretudo à instrução, a difusão da cultura bíblica com todos os meios, inclusive a internet, talvez não deixando o monopólio destas informações a sites pouco e mal-informados, freqüentados superficialmente.


Outra coisa é a aproximação existencial do texto Sagrado, que, como disse, depende de um encontro interpessoal significativo, no qual ressoa o anúncio da fé. Uma vida mudada por este encontro trará consigo o amor às Sagradas Escrituras, das quais são testemunhas estes encontros salvíficos, e que será, em todos os âmbitos, capaz de produzir uma «cultura cristã compartilhada».


Até que ponto biblistas e exegetas podem pesquisar na Bíblia?
Vitiello: No conhecimento humano, o método não é decidido arbitrariamente pelo sujeito conhecedor, mas o objeto conhecido o impõe. E o conhecimento é exatamente um encontro entre o sujeito e o objeto. Isso é realismo.



Se esta regra elementar for respeitada, não haverá limites na pesquisa bíblica, porque esta será simplesmente um «adequar-se» ao método que o próprio objeto – ou seja, o Texto Sagrado – sugere, sem esquecer nunca que a Revelação cristã não se limita ao Texto Sagrado, mas inclui a Tradição e o Magistério vivo, sem os quais não é possível interpretar autenticamente as Escrituras.


Não convém esquecer nunca que estamos diante da narração dos atos históricos realizados por Deus para a salvação dos homens e do mundo, narração que tem com verdadeiro autor o próprio Deus e, contemporaneamente, os hagiógrafos humanos.


O fato de que não haja limites para a pesquisa não significa necessariamente que todos os êxitos da pesquisa sejam corretos. O ser «especialista» ou «pesquisadores», em nenhuma disciplina nos salva de cometer erros, inclusive gafes macroscópicas. O critério vale também para biblistas e exegetas.


O Santo Padre Bento XVI, na Introdução ao livro «Jesus de Nazaré», ofereceu uma série de critérios para uma aproximação correta do Texto Sagrado. Acho que vale a pena retomá-los e partir daí, para toda pesquisa bíblica que quiser ser um verdadeiro serviço eclesial.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Canto deve estar à altura da Palavra que lhe foi confiada, diz Papa

Ao falar de monaquismo, raízes da cultura européia, formação da razão e erudição
Por Alexandre Ribeiro
Roma, domingo, 14 de setembro de 2008 (ZENIT.org).

Bento XVI recordou essa sexta-feira, na França, que o canto litúrgico deve estar à altura da Palavra que lhe foi confiada. Ao falar a expoentes da cultura francesa, no Collège des Bernardins, o Papa destacava o vínculo entre o monaquismo e as raízes da cultura européia.

Bento XVI afirmou que, desde sua origem, os mosteiros se configuraram como os lugares onde “sobreviviam tesouros da velha cultura e onde, a partir deles, ia-se formando pouco a pouco uma nova cultura”. Enfatizando que a intenção dos monges não era “criar uma cultura”, o Santo Padre disse que sua motivação “era mais elementar: quaerere Deum, buscar a Deus”. “Na confusão de um tempo em que nada parecia ficar em pé, os monges queriam dedicar-se ao essencial: trabalhar com perseverança pelo que vale e permanece sempre, encontrar a própria Vida.”

Eles “buscavam a Deus. Queriam passar do secundário ao essencial, ao que é apenas e verdadeiramente importante e confiável. Disse-se que sua orientação era ‘escatológica’. Que não há que entender em sentido cronológico do termo, como se mirassem ao fim do mundo ou à própria morte, mas existencialmente: detrás do provisório, buscavam o definitivo”.

Segundo o Papa, como eram cristãos, os monges não trilhavam uma expedição “por um deserto sem caminhos, uma busca para o vazio absoluto. Deus mesmo havia colocado sinais pelo caminho, inclusive havia traçado um caminho, tratava-se de encontrá-lo e segui-lo”. “O caminho era sua Palavra, que, nos livros das Sagradas Escrituras, estava aberta diante dos homens. A busca de Deus requer, pois, por intrínseca exigência, uma cultura da palavra”, afirmou o pontífice.

Pelo fato de que, na Palavra bíblica, Deus esteja a caminho de nós e nós a Ele, é necessário “aprender a penetrar no segredo da língua, compreendê-la em sua estrutura e no modo de expressar-se”. Posto que a busca de Deus exige a cultura da palavra, o Papa destacou que os mosteiros têm servido à formação e à erudição do homem, “uma formação com o objetivo último de que o homem aprenda a servir a Deus”. “Por isso, comporta evidentemente também a formação da razão, da erudição, pela qual o homem aprende a perceber entre as palavras, a Palavra.”

“Para captar plenamente a cultura da palavra, que pertence à essência da busca de Deus, temos de dar outro passo. A Palavra que abre o caminho da busca de Deus é ela própria o caminho, é uma Palavra que mira à comunidade.” “A Palavra não é um caminho apenas individual de uma imersão mística, mas introduz na comunhão com quantos caminham na fé.”

Há ainda outro passo, segundo Bento XVI: “a Palavra de Deus nos introduz em conversação com Deus. O Deus que fala na Bíblia nos ensina como podemos falar com Ele”. Isso tudo evidencia, segundo o Santo Padre, que “a Palavra de Deus nos alcança apenas através da palavra humana, através das palavras humanas, quer dizer, Deus nos fala apenas através dos homens, mediante suas palavras e sua história”.

Segundo Bento XVI, “o cristianismo capta nas palavra, a Palavra, o próprio Logos que irradia seu mistério”. Nesse sentido, o Papa recordou que, para orar com a Palavra de Deus, “apenas pronunciar não é suficiente, requer-se a música”. “Em São Bento, para a pregação e para o canto dos monges, a regra determinante é o que diz o Salmo: Coram angelis psallam Tibi, Domine - Na presença dos anjos eu vos cantarei (cf. 138, 1).”

“Aqui se expressa a consciência de cantar na oração comunitária na presença de toda a corte celestial e, portanto, de estar expostos ao critério supremo: orar e cantar de modo que se possa estar unidos com a música dos Espíritos sublimes que eram tidos como autores da harmonia do cosmos, da música das esferas.”

“Os monges, com sua pregação e seu canto, hão de estar à altura da Palavra que lhes foi confiada, a sua exigência de verdadeira beleza”, considerou Bento XVI. É dessa “exigência intrínseca de falar e cantar a Deus com as palavras dadas por Ele que nasceu a grande música ocidental”.

“Não se tratava de uma ‘criatividade’ privada, na que o indivíduo ergue a si mesmo como um monumento, tomando como critério essencialmente a representação do próprio eu.” “Tratava-se de reconhecer atentamente com os ‘ouvidos do coração’ as leis intrínsecas da música da própria criação, das formas essenciais da música, postas pelo Criador em seu mundo e no homem, e encontrar assim a música digna de Deus, que, ao mesmo tempo, é verdadeiramente digna do homem e indica de maneira pura sua dignidade”, disse o Papa.

Leia o texto original clicando aqui.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Sínodo sobra a Palavra de Deus

Dos dias 05 a 26 de outubro acontecerá no Vaticano, a XII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Este sínodo, o segundo do pontificado de Bento XVI, terá como tema "A palavra de Deus na vida e na missão da Igreja". Refletindo sobre a Palavra de Deus os bispos deverão refletir sobre como estimular o amor profundo pela Sagrada Escritura para que os fiéis tenham amplo acesso a ela, como promover a Lectio Divina, e sobre como fazer redescobrir o nexo entre Palavra de Deus e liturgia.

A palavra sínodo tem sua origem no idioma grego - sýnodos - e quer dizer ‘caminhar juntos’. Além de bispos, participam sacerdotes, diáconos, religiosos e leigos, cada um com a sua contribuição específica. O Sínodo dos Bispos é uma instituição permanente, criada pelo Papa Paulo VI em 1965, em resposta aos desejos dos Padres do Concilio Vaticano II para manter vivo o espírito de colegialidade nascido da experiência conciliar. É um encontro religioso ou assembléia, onde os bispos, reunidos com o Papa, têm a oportunidade de trocar informações e compartilhar experiências, com o objetivo comum de buscar soluções pastorais que tenham validade e aplicação universal.

Como explica o Instrumentum Laboris (Instrumento de trabalho) apresentado em junho passado, o Sínodo terá uma índole pastoral e missionária. De acordo com Nikola Eterovic, secretário-geral do sínodo dos bispos, o documento contém também diversas citações de Bento XVI e o seu convite à Igreja a renovar-se fazendo votos de uma nova primavera espiritual.

“Ele [o Instrumentum Laboris ] é fruto da reflexão de 13 Sínodos dos bispos das Igrejas Orientais Católicas sui iuris, das 113 Conferências episcopais, dos 25 organismos da Cúria Romana e da União dos Superiores Gerais”. Dividido em três partes, desenvolve: 1) O Mistério de Deus que nos fala; 2) A Palavra de Deus na vida da Igreja; 3) A Palavra de Deus na missão da Igreja.

A Bíblia é o livro mais difundido e traduzido - pode ser lida em 2.454 línguas e que as línguas no mundo são 6.700. Contudo, Dom Eterović ressalta que ela é pouco lida (na Itália, por exemplo, somente 38% dos praticantes a teriam aberto nos últimos 12 meses).

Como membros da Igreja, temos de nos interessar pelos debates e conclusões que surgirão deste Sínodo. A Palavra de Deus faz (ou deveria fazer) parte de nossas vidas de cristãos, pois é através dela que dialogamos com Deus.

Bruno Melo

Como ler a Bíblia? O Papa responde

(...) Antes de tudo, é preciso dizer que se deve ler a Sagrada Escritura não como um livro histórico qualquer, como lemos, por exemplo, Homero, Ovídio, Horácio; é preciso lê-la realmente como Palavra de Deus, isto é, colocando-se em diálogo com Deus. Inicialmente deve-se rezar, falar com o Senhor: "Abre-me a porta". É quanto diz com freqüência Santo Agostinho nas suas homilias: "Bati à porta da tua Palavra para encontrar finalmente o que o Senhor me quer dizer". Isto parece-me um ponto muito importante. Não se lê a Escritura num clima acadêmico, mas rezando e dizendo ao Senhor: "Ajuda-me a compreender a tua Palavra, o que agora tu me queres dizer nesta página".

O segundo ponto é: a Sagrada Escritura introduz na comunhão com a família de Deus. Por conseguinte, não se pode ler sozinhos a Sagrada Escritura. Não há dúvida de que é sempre importante ler a Bíblia de modo muito pessoal, num diálogo pessoal com Deus, mas ao mesmo tempo é importante lê-la na companhia de pessoas com as quais se caminha. Deixar-se ajudar pelos grandes mestres da "Lectio divina". (...) Estes mestres ajudam-nos a compreender melhor e também a aprender como ler bem a Sagrada Escritura. Depois, em geral, é oportuno lê-la também em companhia dos amigos que estão a caminho conosco e procuram, juntos, o modo de viver com Cristo, qual deve ser a vida que nos vem da Palavra de Deus.

O terceiro ponto: se é importante ler a Sagrada Escritura ajudados pelos mestres, acompanhados pelos amigos, pelos companheiros de caminhada, é importante em particular lê-la na grande companhia do Povo de Deus peregrino, isto é, na Igreja. A Sagrada Escritura tem dois sujeitos. Antes de tudo, o sujeito divino: é Deus que fala. Mas Deus quis envolver o homem na sua Palavra. Enquanto os muçulmanos têm a convicção de que o Alcorão seja inspirado verbalmente por Deus, nós cremos que a Sagrada Escritura se caracteriza como dizem os teólogos pela "sinergia", a colaboração de Deus com o Homem. Ele envolve o seu Povo com a sua palavra e assim o segundo sujeito o primeiro sujeito, como disse, é Deus é humano. Nela há escritores individuais, mas também a continuidade de um sujeito permanente o Povo de Deus que caminha com a Palavra de Deus e está em diálogo com Deus. Ouvindo Deus, aprende-se a ouvir a Palavra de Deus e depois também a interpretá-la. E assim a Palavra de Deus torna-se presente, porque as pessoas morrem, mas o sujeito vital, o Povo de Deus, está sempre vivo, e é idêntico ao longo dos milênios: é sempre o mesmo sujeito vivente, no qual vive a Palavra.

Explicam-se assim também muitas estruturas da Sagrada Escritura, sobretudo a chamada "releitura". Um texto antigo é lido de novo noutro livro, digamos 100 anos mais tarde, e então o que ainda não era compreensível naquele momento precedente é compreendido em profundidade, mesmo se já estava contido no texto precedente. E volta a ser lido de novo mais tarde, e de novo se compreendem outros aspectos, outras dimensões da Palavra, e assim nesta permanente releitura e reescritura no contexto de uma continuidade profunda, enquanto se sucediam os tempos da expectativa, a Sagrada Escritura cresceu. Por fim, com a vinda de Cristo e com a experiência dos Apóstolos a Palavra tornou-se definitiva, de forma que não podem haver mais reescrituras, mas continuam a ser necessários novos aprofundamentos da nossa compreensão. O Senhor disse: "O Espírito Santo introduzir-vos-á numa profundidade que agora não podeis ter". Por conseguinte, a comunhão da Igreja é o sujeito vivo da Escritura. Mas também agora o sujeito é o próprio Senhor, o qual continua a falar na Escritura que temos nas mãos. Penso que devemos aprender estes três elementos: ler em diálogo pessoal com o Senhor; ler acompanhados por mestres que têm a experiência da fé, que entraram na Sagrada Escritura; ler na grande companhia da Igreja, em cuja Liturgia estes acontecimentos se tornam sempre de novo presentes, na qual o Senhor fala agora conosco, para que, lentamente entremos cada vez mais na Sagrada Escritura, na qual Deus fala realmente conosco, hoje.

fonte: http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2006/april/documents/hf_ben-xvi_spe_20060406_xxi-wyd_po.html